Às vezes eu me sinto meio fora de sintonia entre quem eu sou e quem eu estou sendo, e você? É como se existisse uma Sofia que não é a mesma que interage com o mundo e que talvez nem tenha esse nome. É como se ela vivesse escondida, observando tudo, sem interferências externas.
E tudo bem essa “Sofia” ser intocada. Mas alguns momentos me fazem imaginar quem eu seria sem as camadas do mundo “real”, sabe? Como quando se fala no budismo em dissolver o ego e nossas inúmeras identidades. Existe uma versão minha que é filha, amiga, aluna, profissional, desconhecida. Mas quem eu sou além disso?

Identidade. Esse foi o tema de uma peça que fui nesse domingo, chamada “Estrangeiras”. Apresentado pela companhia de arte Crisálida, o espetáculo mostra 4 mulheres em busca de pertencimento, de identificação e de sentido.
A nossa forma automática de interagir e interpretar as coisas complicou um pouco o começo da peça para mim. O tema não era abordado de uma forma direta, a peça era cheia de sutilezas, explorava o som, a imagem, a performance do corpo humano.
E eu estava ali esperançosa pela parte em que eu encontraria respostas para as minhas perguntas. A necessidade que a gente tem pela causa-efeito, que tudo tenha uma explicação lógica, estava me impedindo de entender que esse não era o objetivo. Eu tive esse insight durante a peça (ainda bem) e comecei a deixar que os detalhes viessem até mim, sem interferir. Apenas sentindo, ora com os olhos, ora com os ouvidos, ora com algo mais íntimo.

Saí do teatro com aquela sensação de “não sei opinar”. Fui tomar uma cerveja, discuti a peça, li o folheto de novo. A moral da história é que se sentir estrangeiro na sua própria vida é natural, a inquietude vai te perseguir, as perguntas não vão parar de surgir e as eventuais respostas são impermanentes. E tá tudo bem. Essa ocasional angústia existencial passa.
Como escreveu Nietzche, “temos a arte para não morrer da verdade”. Por isso vamos prestigiar a cena artística curitibana. “Estrangeiras” ainda acontece até o dia 26 de maio no espaço Obragem. Tem mais duas peças bacanas acontecendo durante esse mês, chamadas “As cidades invisíveis” e “Mona Lisa vs Adolf Hitler”. Como disse uma amiga minha, cultura tem que ser compartilhada.
Espero que a Sofia intocável também se chame Sofia.
Obrigado por escrever, desta forma e compartilhar.
Para JP Sartre, a existência (escolhas) precedem a essência, então, condenados a infinitude de possibilidades para sermos.
Sermos, a responsabilidade inalcançável, o alvo móvel, não há ponto de chegada.
Assim, condenados, a arte parece sempre ser uma ótima escolha!
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que reflexão! eu amo esses momentos em que a arte nos faz pensar de maneira muito mais densa do que qualquer equação bizarra de matemática! sempre amei teatro, cinema, rolês culturais e artísticos pois eles me colocam nesse mesmo estado que você citou – super pensante 🙂
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