Análise de testes MBTI e uma mudança de opinião

Fiz uma pesquisa, parecida com a que a Letícia fez aqui. Reuni os tipos de personalidade de 52 pessoas baseado no MBTI, teste famoso mundialmente e que eu conheci pela primeira vez há três anos. Desde então, estou na saga do autoconhecimento e já fiz todos os testes imagináveis, sendo uma fã assídua deles. Bem, talvez eu tenha mudado de opinião sobre isso.

O MBTI descreve 16 tipos de personalidade, divididos em quatro grandes grupos: analistas, diplomatas, sentinelas e exploradores. Cada personalidade é descrita por quatro letras:

Extroversão (E) ou Introversão (I): onde você prefere focar a sua energia e atenção

Intuição (N) ou Sensação (S): Tipo de informação que você reúne e confia

Sentimento (F) ou Pensamento (T): Qual processo você usa para chegar a conclusões

Julgamento (J) ou Percepção (P): Como você lida com o mundo ao seu redor

Bom, vamos aos resultados. Primeiro analisei por grandes grupos, e a maioria é diplomata, seguida por sentinelas. Coitado dos exploradores, só três.

Depois, claro, analisei por tipo de personalidade. Um número grande de Ativistas, Mediadores e Cônsules, mas se nos atentarmos aos números, a diferença não é grande. A única personalidade que ficou de fora da pesquisa foi o Animador.

Decidi comparar também as letras, para verificar se havia mais E ou I e assim por diante. Essa análise foi bem decepcionante, a maior diferença foi de 69% de Sentimento (F) para 41% de Pensamento (T).

Pensei em avaliar por área de conhecimento também, já que havia 24 profissões diferentes nos dados. A maioria das pessoas é de exatas, com ênfase nos meus colegas de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia. Mas não encontrei nenhum padrão entre eles (não que sejamos bons exemplos).

Por último avaliei a personalidade das 10 pessoas mais próximos de mim atualmente. São 7 tipos diferentes, com três analistas, três diplomatas e quatro sentinelas.

Gráficos a parte, o meu resultado deu ENFJ (Protagonista), assim como em outras tentativas, com exceção de uma na qual obtive ENTJ (Comandante). Sou o que eles chamam de líder nato, com aptidões para a política, educação e treinamento. Gosto de apoiar causas em prol da comunidade. Barack Obama, Oprah Winfrey, Jennifer Lawrence, Malala Yousafzai, Maya Angelou e Daenerys Targaryen são alguns dos que compartilham minha personalidade.

Eu me identifico com quase tudo do que li sobre ser Protagonista e eu tinha a opinião de que fazer testes e descobrir nomes e estereótipos nos quais me incluir me trariam autoconhecimento, pertencimento e respostas perfeitas para uma entrevista de emprego. Mas então alguns momentos dessa pesquisa e um texto que o Felipe, um ISFP (Aventureiro), me mandou (leia aqui, é muito bom), me fizeram questionar essa crença inabalável na rotulação por testes. Um pesquisador de Harvard, chamado Daniel Gilbert, disse “Os seres humanos são obras em andamento que, erroneamente, pensam que estão terminadas“.

Um exemplo irônico é a Daenerys. Claramente eles colocaram ela no perfil de líder nata e apoiadora de causas antes dela queimar tudo e todos com o seu dragão (me desculpem por relembrar esse final que todos queremos esquecer).

Além do texto, durante minha pesquisa meu pai respondeu a algumas afirmações do teste com “mas uma coisa não exclui a outra”. Além disso, dois amigos meus tiveram resultados com percentuais muito próximos de 50/50, e não se identificaram com seu resultado. Muitas pessoas também achavam que eu era introvertida ao invés de extrovertida. Talvez eu concorde com elas.

Dito tudo isso, não sei como vou abordar testes daqui em diante. O artigo que citei fala sobre o prejuízo de nos identificarmos com tipos de personalidade, porque isso nos restringe e ficamos com o mindset fixo em “eu sou assim e pronto”. Talvez todos esses nomes e características nos limitam. Por pura aleatoriedade olhamos um resultado e pensamos “nossa, essa sou eu”. Apesar de eu gostar de palavras e descrições, pensei em deixar elas de lado quando se trata de mim, ou quem sabe mudar a forma, ao invés de “sou” eu “estou”. Nos denominamos seres humano, mas estamos humanos, é tudo um processo.

E tá tudo bem mudar de opinião, mesmo depois de me expor e ter feito 52 pessoas fazerem um teste do qual tenho minhas ressalvas. A grande dúvida que fica para mim agora é o que é autoconhecimento então? Preciso ressignificar isso.

P.S.: os únicos testes que realmente podemos confiar são os do Buzzfeed. Se eu fosse um sabor japonês de KitKat, por exemplo, eu seria o Hojicha (chá verde torrado). Faça o seu aqui.

Sobre ir de A até B

Salinas Grandes, Argentina

Gosto do ato de me locomover, de me transportar. Cheguei a essa conclusão agora na quarentena, onde minhas idas e vindas estão restritas e minha saudade de lugares distantes está vindo à tona.

Talvez boa parte dessa atração por ir de A até B esteja relacionada com meu amor por viagens e a emoção de se despedir ao deixar um lugar e de ser recepcionada ao chegar em outro.

Lembro da minha última viagem de avião. A ida foi em novembro de 2018. Despachei minhas malas, fiz o check in, me sentei sozinha na poltrona e senti o frio na barriga da decolagem. E então tudo abaixo de mim foi ficando menor e as nuvens surgiram ao meu redor, e senti aquela ansiedade boa por não saber o que aqueles dois meses e meio esperavam. Cheguei no aeroporto de Guarulhos, me perdi nos terminais e explorei esse ambiente que me traz esse estado de transição, de estar em lugar nenhum e em todo lugar ao mesmo tempo. No segundo voo daquele dia, de São Paulo para Frankfurt, aproveitei a janta e o café da manhã, porque não sei vocês, mas refeições em avião sempre tem um gosto especial para mim. E claro, bebi vinho para celebrar comigo mesma.

Já a volta dessa viagem, em fevereiro de 2019, foi repleta de melancolia, saudosismo precoce e angústia, porque não sabia ao certo como seria a minha vida em Curitiba com a Sofia que eu era depois daquela jornada.

Ir para uma experiência ou lugares novos causa um misto de sensações, assim como voltar para casa.

Apesar do meu corpo entrar em êxtase quando sabe que vai viajar de avião, notei que não são só aeroportos e aeronaves que me entusiasmam. O mesmo acontece com trens, ônibus, carros e bicicletas.

Trens sempre me remeteram a algo cinematográfico e poético. É tranquilo, cheio de paisagens, e te permite observar e conversar com diferentes pessoas que entram e saem ao longo do seu trajeto. Gosto de ler, comer sanduíches e acompanhar as paradas.

Vista do trem em Munique, na Alemanha

ônibus, quando falamos em viagens, sempre foi algo mais cansativo e com histórias menos agradáveis, como 14 horas de viagem de Londres para Waterford, na Irlanda, com crianças vomitando, sem conseguir dormir e com uma travessia de ferry inclusa – quando cheguei ao destino ainda tive que esperar 5 horas até meu anfitrião chegar na pousada onde eu ia trabalhar.

Mas o ônibus é meu meio de transporte no dia a dia. Sempre foi meu principal momento de leitura, já perdi a conta de quantos livros finalizei em ônibus e quantas vezes neguei uma carona para poder ter meu tempo de leitura. Lembro que quando eu estagiava, eu demorava quase 2 horas para chegar no estágio de ônibus e fretado, sendo que de carro demoraria 20 min. Mas eu achava ótimo.

Carros sempre foram sinônimo de viagem para mim, já que há 10 anos eu e meus pais não temos mais carro. Nunca tirei carteira de motorista, então sou a copiloto, como na viagem do final do ano passado para a Argentina com o Lucas. Foi a primeira roadtrip que fiz. É emocionante botar o pé na estrada, planejar rotas, chegar em um lugar novo e ter autonomia sobre seu trajeto.

Quebrada de las Flechas, perto de Cafayate, na Argentina

Mas meu verdadeiro amor no mundo da locomoção é a bicicleta. É a forma mais ativa de se transportar e nada se compara com a sensação do vento no rosto enquanto se pedala. Me sinto imponente, desbravadora e livre. No dia em que fiz 92 km de bicicleta sem preparo nenhum, o que me causou dores e febre durante a noite, eu superei meus limites de forma literal, mas essa experiência sempre é um lembrete sobre a minha capacidade de realizar algo. Durante a ida – os primeiros 46 km – havia aquela empolgação de chegar no final daquela ciclovia e ver o mar; já a volta foi sobre resistência, porque eu já estava acabada e não tinha outra opção além de continuar pedalando até voltar para a cidade onde eu estava.

Ciclovia do Green Way na Irlanda

Esse ímpeto de escrever sobre meios de transporte me pareceu estranho e sem sentido a princípio. Mas escrever sobre e relacionar histórias a eles trouxe uma nostalgia e uma vontade de embarcar neles muito intensas. Como meu pai já me descreveu, sou um espírito livre – assim como ele. Você pode nos falar para ir ali comprar pão ou ir até o Nepal, nós estaremos dispostos, porque mudar de lugar muda nossas percepções, é como um combustível. Em alemão chamamos isso de wanderlust.

Analogia entre mim e um antigo ipê

Quinta-feira eu tive uma epifania. Talvez uma daquelas que só façam sentido para mim mesma, mas insights como esse sempre são algo intenso e bonito. Esse foi sobre fazer analogias e criar significados.

Como contei anteriormente aqui, temos um majestoso plátano no nosso jardim. À sua direita, uma espécie que desconheço, e à esquerda temos um ipê, ou melhor, tínhamos. Em janeiro de 2019, um daqueles temporais de verão derrubou nosso ipê, hoje só restando parte do tronco, tomado pela natureza.

Eu, que ando com sentimentos e imaginação a flor da pele, cheguei à conclusão de que eu represento esse ipê, e meus pais as outras duas árvores. Vou explicar o porquê.

Em fevereiro de 2017 assisti ao filme Beleza Oculta com minha amiga Isabela, que foi premiado no temido Framboesa de Ouro, mas que para nós duas foi extremamente impactante, até fizemos textos dedicados a ele no facebook. Sinopses de lado, o filme demonstra que o que nutre a vida são a morte, o tempo e o amor. Pelo menos o conceito de vida.

Alguns dias depois de ver o filme lembrei de uma tatuagem de três árvores que tinha vontade de fazer – somente pela estética – e me dei conta de que fazia completo sentido elas representarem a morte, o tempo e o amor. Mais ainda, elas representam algo que meu pai refletiu no livro sobre sua infância: árvores mantêm suas raízes no solo que as nutriu, assim como nós. Por isso essas árvores também representam a mim, à minha mãe e ao meu pai. A tatuagem ainda está nos planos. E desde ontem carrega mais um significado.

Em janeiro de 2019, no fatídico momento em que o ipê cedeu à tempestade, quem estava cedendo e se descontruindo simultaneamente era eu, a 9.563 km de distância. Eu estava em Waterford, cidade da Irlanda, trabalhando em troca de hospedagem e alimentação em uma pousada. Já estava viajando há mais de um mês, sozinha pela primeira vez, e apesar de ter vivido coisas incríveis e ter aprendido a aproveitar minha própria companhia, tive muitos dias atormentados.

Ter a oportunidade de ver a bigger picture, de analisar minha vida de longe, trouxe respostas, questionamentos e mudanças dolorosas. Descobri muito sobre quem eu era e não era nessa viagem. Essa quebra de crenças e certezas encerrou um ciclo e iniciou um novo, e outros depois desse, nos quais essa Sofia do passado, a Sofia desse exato momento e a Sofia de daqui a pouco se unem.

No fim, estou como o ipê, o tronco que restou deixando a natureza tomar conta e se transformar em algo diferente. É preciso ver a beleza oculta em nós dois.

Minha relação com as cores

Nos últimos dois anos, cor é um tema latente para mim. Parece sem importância, mas eu sempre senti energia por meio das cores e me preocupei em ter uma resposta para “Qual é a sua cor favorita?”. Rosa, roxo, lilás, turquesa, azul, verde e bordô já foram minhas respostas.

Quando eu era criança, meus pais nunca me uniformizaram com uma única cor, muito menos com “cores de menina”. Eles até avacalhavam comigo em composições de estampas e cores nada harmoniosas. Já lá pelos meus 10-12 anos eu mesma me submeti à ditadura do rosa, roxo e lilás, tanto que hoje exclui por completo essas cores do meu guarda-roupa.

Conforme fui envelhecendo, fui me tornando mais sóbria nas cores, e também no meu estilo. Calça jeans, camiseta neutra e cardigan na minha cor favorita do momento. Para mim não parecia importante me expressar por meio do que eu vestia. Uma vez ou outra eu tinha um impulso de comprar uma peça colorida ou diferenciada, mas no fim não me identificava com aquilo.

Em novembro de 2018 viajei para o inverno europeu, cheia de casacos, suéteres, calças e sapatos em tons cinzas e pretos. Quando fui visitar a Letícia em Budapeste, fomos fazer um ensaio fotográfico meu. E eu escolhi uma roupa INTEIRA cinza e lisa (a bota era azul, mas azul acinzentada) e quase sem nenhuma maquiagem. As fotos ficaram lindas independente, mas havia frieza nelas, e a Letícia até comentou que eu deveria usar mais cores, algo vermelho talvez.

Dois dias depois, Letícia tinha um compromisso de mestrado e passeei sozinha pela cidade. Entrei em uma H&M (a loja da minha vida) e me dediquei a fugir das minhas cores neutras e habituais. Comprei um suéter amarelo mostarda e uma calça preta e branca (mas xadrez). E antes disso, passando por um mercado central, eu comprei um cachecol vermelho e azul (que estou usando hoje inclusive). Foi o começo da minha abertura para as cores.

Depois de Budapeste, o cachecol vermelho e azul foi meu fiel companheiro durante a viagem.

Mesmo assim, conforme passou o tempo e eu tentei implementar mais cores no meu guarda-roupa, aquele colorido vibrante me incomodava e eu ainda não me identificava com o que eu vestia. Começou a minha saga de brechós, me desfiz de pelo menos 70% do meu armário e virou rotina trocar preças. Mas eu seguia em uma insatisfação contínua, enjoando das peças e considerando elas inadequadas em pouco tempo.

No começo desse ano eu fiz algo que queria fazer há muito tempo. Fiz um curso de análise de cores. Existem diversos métodos, mas é basicamente encontrar a paleta de cores condizentes com nosso subtom de pele. Aqui em casa temos um livro sobre isso, mas com apenas quatro paletas: primavera, verão, outono e inverno. O meu teste do livro sempre dava primavera.

No primeiro dia do curso eu falei sobre essa minha busca por identificação. E o que eu estava vestindo? Uma blusa preta, por ironia do destino. No último dia do curso, fui a última aluna a fazer o teste. E foi um choque e alívio ao mesmo tempo. Sou outono suave, tenho o subtom quente por incrível que pareça. Por isso o bordô, o turquesa e o verde sempre me atraíram tanto. É por isso também que tons muito chamativos não harmonizam comigo. Minha paleta é cheia de cores, mas todas com baixa saturação. É cheia de rosinhas, roxinhos e lilases. Ainda preciso fazer as pazes com essas cores.

Assim que terminei o curso e vi meu guarda-roupa pensei “Está tudo errado”, mas controlei o impulso de jogar tudo pela janela. Fiz algumas trocas em brechó, e foi incrível como pude passar reto nas várias roupas brancas e pretas que não estão na minha paleta, e todas as peças que vesti harmonizaram comigo.

Mas ainda assim, cor não é tudo, e para mim é o primeiro passo de um grande processo de ressignificação do que é me vestir. Não é futilidade pensar nisso, é uma forma de se expressar no mundo.

Escrevi esse texto de cabelos tonalizados de ruivo. Nunca achei que um tom quente e avermelhado ficaria bem em mim. Faz parte do meu processo de reconciliação com as cores.

Quando o leitor anônimo se revela

Quarta-feira é dia de escrita criativa/sensível – eu e Letícia estamos buscando a definição ideal. Letícia está no canto superior direito da tela, engajada com o seu texto (leiam, ficou intenso). Hoje ela está de batom vermelho após ter feito uma sessão de fotos online (quarentena, né?).

Esse texto tem um roteiro zero definido, mas quero falar sobre escrita, sobre esse blog e sobre vocês, leitores anônimos.

Há mais de um ano que escrevo regularmente sobre aleatoriedades, como vocês puderam ver. Passei por fases em que a escrita foi mecânica, sem ânimo, apenas um esforço para cumprir uma meta. Hoje estou em uma fase mais criativa e fluida, devo isso muito aos meus encontros semanais inspiradores com a Letícia. Apesar de terem hora marcada, eles se tornaram um ritual.

A palavra escrita me atrai há muito tempo, as aulas de redação da professora Angela foram fundamentais para isso. Tenho até hoje guardado um recadinho dela em um texto meu, no qual ela se dizia orgulhosa por me ter como aluna. Mas ainda assim, expor seus textos é outra história. Escrever e publicar algo, com seu nome e sua história envolvidos, mexe com muita coisa. Mexe com o ego, com a autoestima, com a insegurança. Alguns textos meus mal foram acessados. Nunca tive muitos acessos na verdade. Na era da infoxicação e do visual, não é fácil fazer alguém abrir um blog e ler um texto durante 10 minutos. Como já falei com a Letícia, as vezes achamos que nós somos as únicas que lemos e comentamos o texto uma da outra. 

Mas sempre tem aqueles números anônimos. Às vezes você descobre quem eles são. E é sempre uma surpresa receber um “Leio os seus textos”. Isso faz o meu dia e, por mais que a escrita seja um processo interno, saber que alguém está lendo, reagindo e se identificando com isso me estimula e aquece meu coração.

Segunda-feira recebi um dos “Leio os seus textos” mais emocionantes. Ele veio em formato de carta-email para poder unir pensamentos sobre diversos textos meus. Quem escreveu ele foi a Rafa. Estudei com ela durante cinco anos na faculdade, sempre conversamos um pouco, mas nunca pude conhecer ela além da sala de aula e do diploma (que ainda não recebemos e não sei quando receberemos agora). Na semana passada nós já tínhamos feito um facetime para compartilhar nossos momentos pós-faculdade, por termos trajetórias e momentos atuais similares.

As palavras dela me fizeram entender o impacto que eu posso gerar com a escrita, e me aproximaram de uma pessoa sobre a qual eu sabia tão pouco. Vulnerabilidade gera vulnerabilidade. Descobri que ela também sente uma conexão com o “animal”, principalmente quando corre; ela também brincava de LEGO quando criança; ela tem a ideia de fazer um projeto que ajude cachorros; ela quer desbravar esse mundo para ter experiências intensas; ela também está perdida em relação a muitas coisas. E para melhorar, ela deixou desenhos seus no corpo do email, parecidos com os que eu via ela fazendo nos cadernos da faculdade, o que me gerou uma nostalgia deliciosa. E quando eu fiz o pedido para falar dela aqui, ela fez esse desenho LINDO do começo do post. Obrigada.

Essa conexão por meio dos meus textos e dos e-mails que trocamos me fez pensar quantas pessoas eu não tive a oportunidade de conhecer além dos estereótipos. Por isso você, que lê meus textos anonimamente, compartilhe comigo, amo relatos. E quem sabe, assim como com a Rafa, depois dessa quarentena não tomamos um café?

Carta aberta para a minha mãe

Mãe,

Você ainda está dormindo, sei que um plantão de 15 horas durante uma pandemia não é nada fácil. Estou escrevendo sentada em frente ao plátano, que você plantou há 15 anos e hoje é uma árvore majestosa de uns 10 metros de altura. Ela faz companhia para as outras 30 árvores e outras dezenas de plantas que você cultivou no nosso jardim.

Vou aproveitar a brecha do dia das mães para escrever essa carta com pensamentos que vem ocupando minha mente faz um tempo. Esse é um feliz dia das mães que envolve muitos dias pelos quais quero agradecer e me orgulhar de ter você como mãe.

Estava pensando na sua história. Nascida em Curitiba, em 1964, no atual bairro Seminário, na casa atrás da Igreja. Desde pequena você observava o que sua mãe fazia em casa, o que eu aprendi a fazer muito mais tarde. Era a primeira da turma por anos consecutivos, fez o ensino médio técnico em enfermagem. Acordava de madrugada para conseguir pegar o ônibus que te levava até o curso. Fez Filosofia na Universidade Federal do Paraná. Se apaixonou pelo meu pai e depois de quatro anos de espera, ele deixou de ser padre para estar com você. Sei que apesar de parecer uma linda história, ela é recheada de momentos difíceis e de muito julgamento.

Você me teve depois de 4 dias de trabalho de parto, e como você mesma fala, perdeu o Jornal Nacional já que eu decidi nascer às 20h02. Você atravessou um oceano, aprendeu a falar alemão e a se adaptar a uma cultura completamente diferente da sua. Você me conta que no seu primeiro dia das mães, você estava sozinha comigo e me levou no carrinho até um restaurante, falando um alemão básico, para poder comemorar de alguma forma. Você escrevia longas cartas na máquina de escrever para o Brasil, contando sobre nossas vidas para a família que estava longe (só descobri essas cartas há um ano em uma gaveta, uma bela surpresa).

Você conspira que o motivo do Michael Jackson ter tido filhos foi porque ele passou de limusine e viu você passeando comigo no carrinho (só pode ser isso). Você foi paciente comigo misturando alemão e português e decifrando “Watasi”, palavra que eu falava apontando para tudo, que no fim significava “Was ist das?” (“O que é isso?”). Você me ouviu dizer, com muito controle para não rir, “Mãe, você não sabe como é difícil ser criança”.

Você trabalhou por quatro anos em um asilo na Alemanha, e suas economias daquele período foram o suficiente para construir a nossa casa própria no Brasil. Você passou anos procurando emprego quando voltamos em 2005. Trabalhou no censo do IBGE e depois passou em um concurso público para técnica de enfermagem na prefeitura de Curitiba. E hoje, você é uma das pessoas mais confiáveis na Unidade de Pronto Atendimento para cuidar da esterilização dos materiais e do controle da farmácia, o que vem com um custo, como ter que trabalhar o dobro do normal em um momento crítico como esse.

                Nos últimos meses, abracei o que nós temos em comum. Não só nossas sombras, como a ansiedade, mas também aprendi a fazer o seu pão, e eu fico preenchida de gratidão por ver como você está orgulhosa de mim por seguir com essa tradição. Eu também estou buscando me conectar com o jardim como você sempre se conectou, usando terra e plantas para te energizarem, e cultivando uma sabedoria intuitiva. Gosto quando nós duas nos envolvemos em alguma atividade que desperte o nosso lado “bruxa”, como você mesma fala. Também acho que minha afinidade com engenharia foi herdada de você, que desmontou uma máquina de lavar e um aparelho de DVD estragados só para ver como funcionavam por dentro.

                Hoje eu não posso te abraçar, estamos tentando manter o distanciamento social dentro de casa por conta da sua profissão. Mas saiba que nesse dia das mães, eu estou naquele momento da vida no qual compreendemos nossa mãe, sabemos que ela não é perfeita, e sim humana. Obrigada por poder estar na sua linhagem e por todos os seus ensinamentos, mesmo os silenciosos. Eu te amo e admiro.

Da sua filha,

Sofia

Conexão no Isolamento

Essa pandemia está trazendo mudanças. Somos obrigados a mudar a forma como a gente se relaciona e se conecta. Seja com a nossa casa, nossos familiares ou nossos amigos. Para mim, por incrível que pareça, a experiência tem sido gratificante.

Casa

Antes disso tudo eu já estava passando bastante tempo em casa, mas a quarentena me permitiu aproveitar mais os ambientes e os momentos. Estou aproveitando bem mais o jardim, sabendo que é um baita privilégio poder fazer uma leitura rodeada de sol e árvores. Estou cozinhando bem mais, além de ter começado a fazer pães regularmente, então ando bem conectada com a cozinha. Meu quarto se tornou um lugar para acolhimento, estudo, leitura, descanso, yoga, entre outras coisas. Nesse mundo onde ter muitos compromissos e mal ficar em casa é bem visto, aprender a ficar em paz com esse ambiente pode ser um desafio.

Família

Outro ponto é passar mais tempo com a família. Meu pai está em quarentena total por conta da idade, mas é um senhor bastante espirituoso e está lidando bem com o seu isolamento, apesar de ficar ranzinza um dia ou outro. Já minha mãe, como técnica de enfermagem, está na linha de frente de tudo isso, e estamos tentando aliviar o estresse dela o melhor possível quando ela está em casa. Criamos até um ritual: toda noite, depois do jantar, tomamos juntos uma dose de Cynar para “fazer a digestão” e conversar mais um pouco antes de dormir.

Amigos

Mas o que mudou mais drasticamente foi minha relação com os amigos. Sempre fui bastante conectada a eles e não poder sair com eles me afetou bastante. Então virei a louca das videochamadas, converso pelo menos duas vezes por semana com alguém. E uma coisa interessante que comentei com minha amiga Bruna em uma dessas chamadas é que, como não temos mais rotinas agitadas e cheias de acontecimentos, somos forçados a puxar papos menos banais e mais profundos. Um belo ponto positivo.

E o mais incrível vem sendo minha relação com as pessoas que já estavam longe de mim antes da quarentena, como a Elisiane nos EUA, o Thibault na Suíça, a Daphnny na França, a Isabelle na Alemanha e a Letícia na Dinamarca. Acho que o esforço para se sentir próximo está sendo muito mais forte nessas amizades.

A Letícia, por exemplo, como falei no meu primeiro post, é uma das minhas amizades mais inesperadas, pois nas duas vezes que estivemos juntas foi por períodos extremamente curtos, primeiro durante um mês de estágio e depois por quatro dias em Budapeste. E nessa quarentena a gente se fala quase todos os dias e há duas semanas estamos imitando um projeto que ela conheceu em Copenhagen, que é um encontro de escritores amadores. Eles simplesmente sentam e escrevem. E é isso que estamos fazendo todas as quartas. Ligamos o Skype, batemos um papo e escrevemos durante uma hora. Meus melhores textos estão saindo desses momentos, e a escrita voltou a ser algo prazeroso e menos mecânico. É um dos meus momentos favoritos na semana. Confira os textos dela aqui e seguir o instagram dela @leticiamanosso.

Esses são alguns insights e pontos positivos no meio dessa loucura toda. Está sendo sobre se adaptar e se relacionar de forma diferente com ambientes e pessoas. Fico disponível para conversas existenciais por videochamada.

Faça as pazes com a sua história

Ano passado deixei de ser estudante e passei a ser engenheira de bioprocessos e biotecnologia, o que é assustador, pois como muitos recém-formados, eu estou buscando emprego. E isso envolve uma montanha-russa de sentimentos e pensamentos. Envolve uma não autorização da nossa competência.

Venho trabalhando isso em terapia, e na minha última sessão, veio à tona que eu não aceito e não sei contar a minha própria história. Eu acabo inferiorizando, comparando e dizendo que eu deveria ter feito as coisas de forma diferente. Meu erro quando olho para trás é olhar o passado com olhos do presente. Meu eu daquela época não sabia o que sei agora e tinha outras necessidades.

Começo da faculdade

Eu comecei a faculdade já com uma iniciação científica, aprendendo de forma desajeitada sobre como era aquele mundo dos laboratórios e da pesquisa acadêmica. Passado um ano, embarquei em mais um projeto, dessa vez mais protagonista em relação ao que eu estava fazendo ali, mas sempre frustrada, pois os experimentos não davam certo e não cumprimos todas as etapas que queríamos.

Meu primeiro projeto apresentado com esse ser brilhante chamado Giovanni

Estágio

Então chegou o momento de conseguir um estágio e me chamaram para uma entrevista na empresa dos sonhos, a Novozymes. Eu fiquei feliz só de participar do processo seletivo, e lembro que nem soube reagir quando recebi a resposta positiva. Entrei no serviço técnico, e trabalhei durante um ano com aplicação de enzimas em panificados e laticínios.

Nos primeiros três meses de estágio, trabalhei com uma pessoa complicada, que dizia coisas para mim que deixaram minha autoestima e motivação zeradas. Mas as coisas foram evoluindo, deixei de ser tão sensível às críticas e me desenvolvi ao máximo. Sempre ouvi piadas sobre eu sair do estágio com um saco de pão debaixo do braço (sobras dos nossos testes), e meio que absorvi que minha experiência era inferior a das outras pessoas que estagiavam ali. Mas, olhando em retrospecto, eu aprendi muito, e o universo de alimentos ao qual fui apresentada é extremamente complexo. Aprendi desde o preparo até a análise de um alimento. Foi ali que me apaixonei por essa área e me entreguei por inteiro aos nossos projetos.

Eu optei por não fazer mais um ano de estágio. Primeiro, porque minha rotina não tinha espaço para descanso; segundo, porque eu estava escrevendo um novo projeto de iniciação científica, e tive a necessidade de aproveitar o tempo que me restava na universidade; terceiro, porque eu queria fazer uma viagem longa e não tinha certeza quando poderia fazer ela de novo.

Nos meus últimos dias de estágio, fiz reuniões de feedback que me fizeram ver quanta coisa boa eu tinha feito, e também os pontos que eu tinha para melhorar. Tive um almoço de despedida e recebi presentes que me fizeram entender o quanto eu importei para o meu time e que eu realmente mostrei quem era a Sofia. E eu acho que é isso que é o essencial no fim das contas. Somos substituíveis em qualquer cargo, mas podemos deixar nossa marca. Quando eu desliguei as luzes e tranquei a porta do laboratório de panificação pela última vez, pensei “Será vou ver esse lugar de novo?”. Chorei muito, abracei muito. Era difícil dizer adeus para uma experiência tão intensa.

Fim da faculdade

Então eu voltei para a universidade. Comecei minha iniciação científica, fui diretora de eventos do centro acadêmico, fui convidada a ser bolsista do primeiro projeto de extensão do meu curso, viajei sozinha por 2 meses e meio, trabalhei em uma pousada na Irlanda, fui convidada para participar da comissão própria de avaliação da universidade, tentei sem sucesso conseguir mais um estágio e comecei a estudar espanhol.

O resultado disso? Continuei a me frustrar com a pesquisa acadêmica (o importante é descobrir o que não queremos fazer), costurei um biomaterial de celulose bacteriana que eu e meus colegas desenvolvemos, dei uma palestra para o esquadrão antibombas, participei de projetos incríveis com escolas e empresas, adquiri fluência no inglês, aprendi a limpar um banheiro que é uma beleza, fiz 92 km de bicicleta sem preparo físico e tive febre depois, aprendi sobre solitude e me autoconheci como nunca antes.

Hoje o que eu penso é que uma trajetória mais linear poderia ter me garantido um emprego e outras recompensas de forma mais imediata. Mas eu segui minha intuição, entrei e deixei lugares que senti que precisava naquele momento. E meu trabalho agora é olhar com carinho e um imenso orgulho para tudo isso, e quando for contar essa história, não justificar ou menosprezar algum detalhe dela, porque é por conta dela que estou escrevendo esse texto hoje.

“As boas mulheres da China”

Tenho um desafio pessoal de ler um livro de 198 países que seja escrito por uma pessoa nativa e que aborde um pouco a história e cultura daquele lugar. Até agora eu li 10 livros, então estou longe de terminar. Mas a minha leitura mais recente, “As boas mulheres da China”, de Xinran, foi surpreendente.

Xinran é uma jornalista chinesa nascida em Pequim, em 1958. Seu programa de rádio, muito famoso, tinha como objetivo discutir as questões da mulher chinesa. Ela recebeu, entre 1989 e 1997, milhares de cartas e ouviu histórias de mulheres que não tinham autonomia nenhuma, não tinham conhecimento sobre sua sexualidade, foram violentadas por parentes e membros do Partido Comunista. Alguns desses relatos não podiam ser divulgados por conta da censura, mas inspiraram ela a escrever um livro, que ela conseguiu publicar após se mudar para a Inglaterra.

Óbvio que não precisamos ir longe para ver mulheres submetidas à ignorância, opressão e violência. Mas foi interessante ver as semelhanças e as diferenças entre a nossa sociedade e a sociedade chinesa. As histórias relatadas e a forma como Xinran decidiu transmitir elas são muito tocantes e às vezes inacreditáveis. Por exemplo, na Colina dos Gritos, local afastado e com hábitos bastante rudimentares e patriarcais, as mulheres usam folhas como absorvente, e essas causam feridas nas virilhas enquanto elas andam. Além disso, as meninas desse lugar compartilham somente um conjunto de roupas, de forma que só uma por vez pode deixar as cavernas onde vivem.

No próprio livro estão alguns símbolos do mandarim que mostram como essa visão da mulher está enraizada na cultura e como isso dificulta qualquer mudança. Existe o símbolo de figura feminina, e se você juntar ele ao da dona de casa, você tem mulher. No português, também soa estranho falar dono de casa, não? Já se você juntar figura feminina mais filho, resulta em bom. Esse último exemplo me lembra um pouco do que vi no documentário “One Child Nation”, que retrata a Política do Filho Único na China, na qual, entre 1979 e 2015, as famílias só podiam ter um filho. Isso desencadeou abortos e esterilizações forçados, além do abandono de crianças, principalmente de meninas. A forma como a cultura chinesa vê a filha mulher é cruel.

É uma leitura muito intensa, mas muito importante para entender mais da cultura chinesa e como, independente do lugar, a mulher sempre foi inferiorizada e marginalizada. Por isso, é necessário expor essas histórias e nos educar para, aos poucos, conquistarmos igualdade de gênero.

Minha história com os lobos

Estava buscando fotos da minha infância para me inspirar para o texto anterior que escrevi, quando me deparei com a foto abaixo.

Essa sou eu, com cerca de 6 anos, posando com um pelo de lobo sobre a minha cabeça (nunca soube se era verdadeiro ou falso). Ele pertenceu ao pai da minha amiga de infância Glória, chamado Ernö. Infelizmente ele faleceu há muitos anos em decorrência de um câncer, mas sempre vou considerar ele como um segundo pai. Ele foi uma criança órfã vinda da Bulgária para a Alemanha, virou um excelente chefe de cozinha e era um pintor nato. Ele tinha os cabelos longos, era cheio de tatuagens e brincos, e tinha uma atração intensa pela cultura aborígene. Eu acho que é isso que me mantém tão conectada a ele. Há um ano atrás eu encontrei aqueles cartões que recebemos em funerais, e o dele era o mais poderoso, com um desenho de um búfalo e agradecimentos por ele ter sido o espírito livre que era. Não sei porque faço essa analogia, mas para explicar para as pessoas como ele era, sempre gosto de citar o cavalo selvagem do filme Spirit.

Então, sempre que penso na minha essência, na minha natureza, o Ernö e os lobos vem a minha mente. Desde de pequena, eu fui fascinada por lobos. São animais livres, instintivos e selvagens, mas ao mesmo tempo fieis à sua matilha.

Eu lembro que eu pedia todos os tipos de brinquedos e objetos com temática de lobo, o que nem sempre era fácil de encontrar. Podia ser cachorro? Não. Eu assistia documentários, filmes e desenhos repetidas vezes. Lembro em especial do filme japonês Princesa Mononoke, que inspirou a sessão de fotos acima. No dia em que meu pai me levou em um zoológico e vi aqueles animais pela primeira vez, fiquei grudada na cerca com os olhos fixos neles. Eu implorava e sonhava em ter um lobo.

Filme Princesa Mononoke

Mais tarde, na fase “quero fazer uma tatuagem”, eu não tive dúvidas: a minha primeira tatuagem foi um lobo. E é como se fosse uma marca de nascença, me identifico muito mais com meu corpo desde então.

Agora eu estou lendo “Mulheres que correm com os lobos”, da psicóloga jungiana Clarissa Pinkola Estés. O título já diz muito sobre minha afinidade com a leitura. Já no prefácio e introdução, a autora compara a psique do lobo e da mulher selvagem. Uma das próprias personagens dos contos é La Loba. Sei que quando li isso, eu chorei, porque nunca houve um motivo para eu me sentir tão atraída por lobos. Simplesmente era natural. Talvez era eu, desde pequena, em busca da minha mulher selvagem.

“Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas”

Clarissa Pinkola Estés