No final do ano passado, minha amiga Sheila me fez o convite para acompanhar, por meio de revisões, edições e conversas, a escrita da história dela. Cada pequeno acontecimento que ela narra faz parte de sua formação. Penso que esse projeto é sobre curar, evocar da memória, ser vulnerável, aceitar e ser sensível. Obrigada Sheila, por me deixar fazer parte disso e estar disposta a compartilhar. Segue um trecho, chamado “Ela não me ama”.

Tenho poucas lembranças da minha mãe me fazendo carinho. A primeira vez que questionei o porquê, ouvi a explicação da tia Neia: eu chorava muito nos primeiros anos de vida e isso afastava as pessoas da nossa casa. Ela dizia que minha mãe deixou de ser bem vinda nos lugares, até nos supermercados, por causa do meu choro incessante. Para agravar a situação, minha mãe tinha que ficar comigo no colo sentada no meio fio em frente a nossa casa durante toda a noite para meu pai poder dormir sem ser incomodado por mim. Ela me contou também que certa vez, num momento aparente de desespero, minha mãe chegou a encher o tanque de lavar roupa para me afogar, mas foi impedida pela vizinha.
Passamos muitos anos de médico em médico tentando descobrir o que me fazia chorar. Meu pai chegou a vender uma propriedade para pagar tratamentos. A minha mãe guardava em um baú centenas de exames que fiz nos meus primeiros anos de vida. Mas somente quando eu tinha três anos descobrimos a doença. Identificaram a má formação de um canal que liga o rim à bexiga. O canal não filtrava as impurezas devidamente, me causando muitas dores abdominais, inclusive aumentando enormemente a possibilidade de anemia e outras doenças. A fase seguinte, após essa descoberta, também foi bastante difícil para mim. Tenho muitas lembranças de canos sendo inseridos em mim e eu sendo segurada em macas a força por enfermeiras e médicos. Me lembro de ter a alma invadida nessas sessões. Me lembro até de ver lágrimas nos olhos do meu pai, pela fresta que se formava entre as pessoas que me seguravam na maca. Eu também me lembro de não aguentar mais.
Já maiorzinha, ouvia as versões dos meus avós sobre o porquê do distanciamento entre mim e minha mãe. Um certo dia, enquanto eu balançava na rede, os ouvi falando sobre como custou caro até me ouvirem rir e não mais chorar. Eles repetiram comentários como esse por anos a fio, principalmente nos almoços de domingo em família, falando sobre todo o sofrimento que eu havia instalado na vida dos meus pais.
A grande questão é que ouvi muitas histórias e comentários como esses desde meus seis anos de idade. E eu por muito tempo acreditei que a culpa pela minha mãe não me amar era minha. Me custou décadas para deixar essa culpa ir embora e me sentir digna de qualquer amor.
Tive a oportunidade de ouvir um pouco dessa história pessoalmente há aproximadamente 2 meses atrás, me impressionei, pois jamais imaginei que a infância dela teria sido assim…essa mulher é guerreira!
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Obrigada por abraçar minha causa, Sofia! Esse projeto e eu precisamos de vc S2
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