
Eu entrei em um processo. Um processo de descoberta, introspecção, observação, empatia e libertação. Um processo no qual me percebi mulher, ser humano. Um processo no qual eu comecei a problematizar o “ah, isso é besteira”. Um processo no qual eu me dei conta do quão pequena é a bolha na qual eu vivo, e quantos privilégios eu tenho. E sim, esse processo está acontecendo por meio da dança.
Eu espero que minha explicação e relato façam jus ao projeto da Jade, idealizadora do BDNT. Há quase 5 anos ela dá aulas de dança nesse espaço acolhedor, trazendo seu conhecimento de psicologia corporal para libertar as tensões do corpo e da mente. Já aviso que não se trata da dança pela dança e os estilos musicais e os shortinhos não tem nada de promíscuo ou como seus preconceitos queiram chamar.
Cada menina tem o seu propósito e as suas inseguranças quando está ali. Causa feminista, autoestima, relaxamento. O significado é você quem dá. Eu entrei no BDNT para poder me identificar com algo e desenvolver minha expressão corporal.
Na minha primeira aula, assim como toda primeira aula do mês, fizemos uma roda de conversa e a Jade nos fez uma pergunta. A pergunta era “Se você pudesse fazer o que você quiser, o que você faria?”. Fui a segunda a responder e disse que se eu pudesse não ter que lidar com o fim da faculdade e a pressão de conseguir um emprego, eu botaria o mochilão nas costas e viajaria a América do Sul. Outras trinta meninas compartilharam suas vontades, e eu me identifiquei em tantas respostas, me emocionei com outras e notei o quão complexas eram cada uma daquelas mulheres. Não sei vocês, mas eu muitas vezes tento simplificar as pessoas, como se eu entendesse elas perfeitamente. Quanta ingenuidade, não é mesmo?
Então a dança começou. Eu sempre me considerei uma péssima dançarina e dizia que era culpa da descendência ucraniana e alemã. Mas vocês têm ideia de quanta tensão a gente concentra nos nossos ombros e no nosso quadril? A verdade é que minha falta de habilidade, além da falta de prática, é ocasionada por estresse e repressão acumulados. A cada aula eu me solto mais, e desde o primeiro dia deixei a vergonha de lado e participei das gravações de vídeo para ver minha evolução. A primeira vez que vi meu vídeo, eu chorei. Chorei de alegria, porque eu estava menos ridícula do que eu achei que estaria.

No segundo mês, a pergunta inicial foi “O que você faz para se sentir bem?”. Foi uma pergunta que me acertou em cheio. Eu sou a pessoa que faz acupuntura, yoga, pedala, lê e não trabalha, e mesmo assim, mesmo fazendo um esforço para fazer coisas que me façam bem, não consigo estar presente e estou sempre tensa. E justo naquela semana eu estava frustrada com isso e vi quantas meninas passam pela mesmíssima coisa. Um momento aqui para expressar minha gratidão de ter mulheres como Cinthia no nosso grupo. Ela começou a resposta dela com “bebo uma taça de vinho tinto todas as noites”.
Nem toda semana é fácil dançar e esse processo não é uma escadinha, é uma montanha-russa. Um dia me sinto plena e cheia da malemolência, no outro dia tenho vontade de chorar por enfrentar as limitações do meu corpo. Mas é um processo, como falei no início, no qual eu devo aprender a me respeitar e respeitar quem está ali comigo, pois somos todas mulheres, com histórias únicas.
Eu sempre li sobre e me considerei feminista, mas achava um exagero colocar o assunto tão em pauta. Talvez porque eu nunca sofri grandes consequências e não me dava conta dos bloqueios que relacionamentos e convívios sociais me trouxeram. Hoje vejo a importância de me impor nesse aspecto e dar voz e espaço às mulheres ao meu redor, sem preconceitos, competição ou repressões entre nós mesmas. O mundo lá fora já é cruel o suficiente.
E eu encerro agradecendo a Jade, por fazer esse projeto acontecer, as meninas da turma de quarta e sábado, que fizeram eu me sentir tão acolhida, a Barbara, que topou entrar nessa comigo e é minha companheira oficial de sorvete pós-BDNT, e a Lisi e Elis, que me inspiraram a fazer parte disso. Até agora, foram duas horas semanais em dois meses que desconstruíram muita coisa.
que orgulho! se eu estivesse aí pertinho iria com você me descobrir nesse mundo da dança!
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