
Gosto do ato de me locomover, de me transportar. Cheguei a essa conclusão agora na quarentena, onde minhas idas e vindas estão restritas e minha saudade de lugares distantes está vindo à tona.
Talvez boa parte dessa atração por ir de A até B esteja relacionada com meu amor por viagens e a emoção de se despedir ao deixar um lugar e de ser recepcionada ao chegar em outro.
Lembro da minha última viagem de avião. A ida foi em novembro de 2018. Despachei minhas malas, fiz o check in, me sentei sozinha na poltrona e senti o frio na barriga da decolagem. E então tudo abaixo de mim foi ficando menor e as nuvens surgiram ao meu redor, e senti aquela ansiedade boa por não saber o que aqueles dois meses e meio esperavam. Cheguei no aeroporto de Guarulhos, me perdi nos terminais e explorei esse ambiente que me traz esse estado de transição, de estar em lugar nenhum e em todo lugar ao mesmo tempo. No segundo voo daquele dia, de São Paulo para Frankfurt, aproveitei a janta e o café da manhã, porque não sei vocês, mas refeições em avião sempre tem um gosto especial para mim. E claro, bebi vinho para celebrar comigo mesma.
Já a volta dessa viagem, em fevereiro de 2019, foi repleta de melancolia, saudosismo precoce e angústia, porque não sabia ao certo como seria a minha vida em Curitiba com a Sofia que eu era depois daquela jornada.
Ir para uma experiência ou lugares novos causa um misto de sensações, assim como voltar para casa.
Apesar do meu corpo entrar em êxtase quando sabe que vai viajar de avião, notei que não são só aeroportos e aeronaves que me entusiasmam. O mesmo acontece com trens, ônibus, carros e bicicletas.
Trens sempre me remeteram a algo cinematográfico e poético. É tranquilo, cheio de paisagens, e te permite observar e conversar com diferentes pessoas que entram e saem ao longo do seu trajeto. Gosto de ler, comer sanduíches e acompanhar as paradas.

Já ônibus, quando falamos em viagens, sempre foi algo mais cansativo e com histórias menos agradáveis, como 14 horas de viagem de Londres para Waterford, na Irlanda, com crianças vomitando, sem conseguir dormir e com uma travessia de ferry inclusa – quando cheguei ao destino ainda tive que esperar 5 horas até meu anfitrião chegar na pousada onde eu ia trabalhar.
Mas o ônibus é meu meio de transporte no dia a dia. Sempre foi meu principal momento de leitura, já perdi a conta de quantos livros finalizei em ônibus e quantas vezes neguei uma carona para poder ter meu tempo de leitura. Lembro que quando eu estagiava, eu demorava quase 2 horas para chegar no estágio de ônibus e fretado, sendo que de carro demoraria 20 min. Mas eu achava ótimo.
Carros sempre foram sinônimo de viagem para mim, já que há 10 anos eu e meus pais não temos mais carro. Nunca tirei carteira de motorista, então sou a copiloto, como na viagem do final do ano passado para a Argentina com o Lucas. Foi a primeira roadtrip que fiz. É emocionante botar o pé na estrada, planejar rotas, chegar em um lugar novo e ter autonomia sobre seu trajeto.

Mas meu verdadeiro amor no mundo da locomoção é a bicicleta. É a forma mais ativa de se transportar e nada se compara com a sensação do vento no rosto enquanto se pedala. Me sinto imponente, desbravadora e livre. No dia em que fiz 92 km de bicicleta sem preparo nenhum, o que me causou dores e febre durante a noite, eu superei meus limites de forma literal, mas essa experiência sempre é um lembrete sobre a minha capacidade de realizar algo. Durante a ida – os primeiros 46 km – havia aquela empolgação de chegar no final daquela ciclovia e ver o mar; já a volta foi sobre resistência, porque eu já estava acabada e não tinha outra opção além de continuar pedalando até voltar para a cidade onde eu estava.

Esse ímpeto de escrever sobre meios de transporte me pareceu estranho e sem sentido a princípio. Mas escrever sobre e relacionar histórias a eles trouxe uma nostalgia e uma vontade de embarcar neles muito intensas. Como meu pai já me descreveu, sou um espírito livre – assim como ele. Você pode nos falar para ir ali comprar pão ou ir até o Nepal, nós estaremos dispostos, porque mudar de lugar muda nossas percepções, é como um combustível. Em alemão chamamos isso de wanderlust.
AIIIII ❤ team de escritoras wanderlust!!!!
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