Analogia entre mim e um antigo ipê

Quinta-feira eu tive uma epifania. Talvez uma daquelas que só façam sentido para mim mesma, mas insights como esse sempre são algo intenso e bonito. Esse foi sobre fazer analogias e criar significados.

Como contei anteriormente aqui, temos um majestoso plátano no nosso jardim. À sua direita, uma espécie que desconheço, e à esquerda temos um ipê, ou melhor, tínhamos. Em janeiro de 2019, um daqueles temporais de verão derrubou nosso ipê, hoje só restando parte do tronco, tomado pela natureza.

Eu, que ando com sentimentos e imaginação a flor da pele, cheguei à conclusão de que eu represento esse ipê, e meus pais as outras duas árvores. Vou explicar o porquê.

Em fevereiro de 2017 assisti ao filme Beleza Oculta com minha amiga Isabela, que foi premiado no temido Framboesa de Ouro, mas que para nós duas foi extremamente impactante, até fizemos textos dedicados a ele no facebook. Sinopses de lado, o filme demonstra que o que nutre a vida são a morte, o tempo e o amor. Pelo menos o conceito de vida.

Alguns dias depois de ver o filme lembrei de uma tatuagem de três árvores que tinha vontade de fazer – somente pela estética – e me dei conta de que fazia completo sentido elas representarem a morte, o tempo e o amor. Mais ainda, elas representam algo que meu pai refletiu no livro sobre sua infância: árvores mantêm suas raízes no solo que as nutriu, assim como nós. Por isso essas árvores também representam a mim, à minha mãe e ao meu pai. A tatuagem ainda está nos planos. E desde ontem carrega mais um significado.

Em janeiro de 2019, no fatídico momento em que o ipê cedeu à tempestade, quem estava cedendo e se descontruindo simultaneamente era eu, a 9.563 km de distância. Eu estava em Waterford, cidade da Irlanda, trabalhando em troca de hospedagem e alimentação em uma pousada. Já estava viajando há mais de um mês, sozinha pela primeira vez, e apesar de ter vivido coisas incríveis e ter aprendido a aproveitar minha própria companhia, tive muitos dias atormentados.

Ter a oportunidade de ver a bigger picture, de analisar minha vida de longe, trouxe respostas, questionamentos e mudanças dolorosas. Descobri muito sobre quem eu era e não era nessa viagem. Essa quebra de crenças e certezas encerrou um ciclo e iniciou um novo, e outros depois desse, nos quais essa Sofia do passado, a Sofia desse exato momento e a Sofia de daqui a pouco se unem.

No fim, estou como o ipê, o tronco que restou deixando a natureza tomar conta e se transformar em algo diferente. É preciso ver a beleza oculta em nós dois.

One thought on “Analogia entre mim e um antigo ipê

  1. wooow que analogia profunda! eu também tenho essas reflexões que só eu entendo as vezes haha
    é incrível poder transmitir isso na escrita. Fiquei super curiosa sobre o filme Beleza Oculta, vou assistir!

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