
Tenho um desafio pessoal de ler um livro de 198 países que seja escrito por uma pessoa nativa e que aborde um pouco a história e cultura daquele lugar. Até agora eu li 10 livros, então estou longe de terminar. Mas a minha leitura mais recente, “As boas mulheres da China”, de Xinran, foi surpreendente.
Xinran é uma jornalista chinesa nascida em Pequim, em 1958. Seu programa de rádio, muito famoso, tinha como objetivo discutir as questões da mulher chinesa. Ela recebeu, entre 1989 e 1997, milhares de cartas e ouviu histórias de mulheres que não tinham autonomia nenhuma, não tinham conhecimento sobre sua sexualidade, foram violentadas por parentes e membros do Partido Comunista. Alguns desses relatos não podiam ser divulgados por conta da censura, mas inspiraram ela a escrever um livro, que ela conseguiu publicar após se mudar para a Inglaterra.
Óbvio que não precisamos ir longe para ver mulheres submetidas à ignorância, opressão e violência. Mas foi interessante ver as semelhanças e as diferenças entre a nossa sociedade e a sociedade chinesa. As histórias relatadas e a forma como Xinran decidiu transmitir elas são muito tocantes e às vezes inacreditáveis. Por exemplo, na Colina dos Gritos, local afastado e com hábitos bastante rudimentares e patriarcais, as mulheres usam folhas como absorvente, e essas causam feridas nas virilhas enquanto elas andam. Além disso, as meninas desse lugar compartilham somente um conjunto de roupas, de forma que só uma por vez pode deixar as cavernas onde vivem.
No próprio livro estão alguns símbolos do mandarim que mostram como essa visão da mulher está enraizada na cultura e como isso dificulta qualquer mudança. Existe o símbolo de figura feminina, e se você juntar ele ao da dona de casa, você tem mulher. No português, também soa estranho falar dono de casa, não? Já se você juntar figura feminina mais filho, resulta em bom. Esse último exemplo me lembra um pouco do que vi no documentário “One Child Nation”, que retrata a Política do Filho Único na China, na qual, entre 1979 e 2015, as famílias só podiam ter um filho. Isso desencadeou abortos e esterilizações forçados, além do abandono de crianças, principalmente de meninas. A forma como a cultura chinesa vê a filha mulher é cruel.
É uma leitura muito intensa, mas muito importante para entender mais da cultura chinesa e como, independente do lugar, a mulher sempre foi inferiorizada e marginalizada. Por isso, é necessário expor essas histórias e nos educar para, aos poucos, conquistarmos igualdade de gênero.
Amei seu desafio pessoal, é bem diferente de tudo que já vi por aí! Fiquei super feliz com nossa escrita criativa à distância, o resultado desse primeiro encontro foi muito bom! Vai ter muito texto por aí ❤
LikeLike