Faça as pazes com a sua história

Ano passado deixei de ser estudante e passei a ser engenheira de bioprocessos e biotecnologia, o que é assustador, pois como muitos recém-formados, eu estou buscando emprego. E isso envolve uma montanha-russa de sentimentos e pensamentos. Envolve uma não autorização da nossa competência.

Venho trabalhando isso em terapia, e na minha última sessão, veio à tona que eu não aceito e não sei contar a minha própria história. Eu acabo inferiorizando, comparando e dizendo que eu deveria ter feito as coisas de forma diferente. Meu erro quando olho para trás é olhar o passado com olhos do presente. Meu eu daquela época não sabia o que sei agora e tinha outras necessidades.

Começo da faculdade

Eu comecei a faculdade já com uma iniciação científica, aprendendo de forma desajeitada sobre como era aquele mundo dos laboratórios e da pesquisa acadêmica. Passado um ano, embarquei em mais um projeto, dessa vez mais protagonista em relação ao que eu estava fazendo ali, mas sempre frustrada, pois os experimentos não davam certo e não cumprimos todas as etapas que queríamos.

Meu primeiro projeto apresentado com esse ser brilhante chamado Giovanni

Estágio

Então chegou o momento de conseguir um estágio e me chamaram para uma entrevista na empresa dos sonhos, a Novozymes. Eu fiquei feliz só de participar do processo seletivo, e lembro que nem soube reagir quando recebi a resposta positiva. Entrei no serviço técnico, e trabalhei durante um ano com aplicação de enzimas em panificados e laticínios.

Nos primeiros três meses de estágio, trabalhei com uma pessoa complicada, que dizia coisas para mim que deixaram minha autoestima e motivação zeradas. Mas as coisas foram evoluindo, deixei de ser tão sensível às críticas e me desenvolvi ao máximo. Sempre ouvi piadas sobre eu sair do estágio com um saco de pão debaixo do braço (sobras dos nossos testes), e meio que absorvi que minha experiência era inferior a das outras pessoas que estagiavam ali. Mas, olhando em retrospecto, eu aprendi muito, e o universo de alimentos ao qual fui apresentada é extremamente complexo. Aprendi desde o preparo até a análise de um alimento. Foi ali que me apaixonei por essa área e me entreguei por inteiro aos nossos projetos.

Eu optei por não fazer mais um ano de estágio. Primeiro, porque minha rotina não tinha espaço para descanso; segundo, porque eu estava escrevendo um novo projeto de iniciação científica, e tive a necessidade de aproveitar o tempo que me restava na universidade; terceiro, porque eu queria fazer uma viagem longa e não tinha certeza quando poderia fazer ela de novo.

Nos meus últimos dias de estágio, fiz reuniões de feedback que me fizeram ver quanta coisa boa eu tinha feito, e também os pontos que eu tinha para melhorar. Tive um almoço de despedida e recebi presentes que me fizeram entender o quanto eu importei para o meu time e que eu realmente mostrei quem era a Sofia. E eu acho que é isso que é o essencial no fim das contas. Somos substituíveis em qualquer cargo, mas podemos deixar nossa marca. Quando eu desliguei as luzes e tranquei a porta do laboratório de panificação pela última vez, pensei “Será vou ver esse lugar de novo?”. Chorei muito, abracei muito. Era difícil dizer adeus para uma experiência tão intensa.

Fim da faculdade

Então eu voltei para a universidade. Comecei minha iniciação científica, fui diretora de eventos do centro acadêmico, fui convidada a ser bolsista do primeiro projeto de extensão do meu curso, viajei sozinha por 2 meses e meio, trabalhei em uma pousada na Irlanda, fui convidada para participar da comissão própria de avaliação da universidade, tentei sem sucesso conseguir mais um estágio e comecei a estudar espanhol.

O resultado disso? Continuei a me frustrar com a pesquisa acadêmica (o importante é descobrir o que não queremos fazer), costurei um biomaterial de celulose bacteriana que eu e meus colegas desenvolvemos, dei uma palestra para o esquadrão antibombas, participei de projetos incríveis com escolas e empresas, adquiri fluência no inglês, aprendi a limpar um banheiro que é uma beleza, fiz 92 km de bicicleta sem preparo físico e tive febre depois, aprendi sobre solitude e me autoconheci como nunca antes.

Hoje o que eu penso é que uma trajetória mais linear poderia ter me garantido um emprego e outras recompensas de forma mais imediata. Mas eu segui minha intuição, entrei e deixei lugares que senti que precisava naquele momento. E meu trabalho agora é olhar com carinho e um imenso orgulho para tudo isso, e quando for contar essa história, não justificar ou menosprezar algum detalhe dela, porque é por conta dela que estou escrevendo esse texto hoje.

Leave a comment