
Mãe,
Você ainda está dormindo, sei que um plantão de 15 horas durante uma pandemia não é nada fácil. Estou escrevendo sentada em frente ao plátano, que você plantou há 15 anos e hoje é uma árvore majestosa de uns 10 metros de altura. Ela faz companhia para as outras 30 árvores e outras dezenas de plantas que você cultivou no nosso jardim.
Vou aproveitar a brecha do dia das mães para escrever essa carta com pensamentos que vem ocupando minha mente faz um tempo. Esse é um feliz dia das mães que envolve muitos dias pelos quais quero agradecer e me orgulhar de ter você como mãe.
Estava pensando na sua história. Nascida em Curitiba, em 1964, no atual bairro Seminário, na casa atrás da Igreja. Desde pequena você observava o que sua mãe fazia em casa, o que eu aprendi a fazer muito mais tarde. Era a primeira da turma por anos consecutivos, fez o ensino médio técnico em enfermagem. Acordava de madrugada para conseguir pegar o ônibus que te levava até o curso. Fez Filosofia na Universidade Federal do Paraná. Se apaixonou pelo meu pai e depois de quatro anos de espera, ele deixou de ser padre para estar com você. Sei que apesar de parecer uma linda história, ela é recheada de momentos difíceis e de muito julgamento.
Você me teve depois de 4 dias de trabalho de parto, e como você mesma fala, perdeu o Jornal Nacional já que eu decidi nascer às 20h02. Você atravessou um oceano, aprendeu a falar alemão e a se adaptar a uma cultura completamente diferente da sua. Você me conta que no seu primeiro dia das mães, você estava sozinha comigo e me levou no carrinho até um restaurante, falando um alemão básico, para poder comemorar de alguma forma. Você escrevia longas cartas na máquina de escrever para o Brasil, contando sobre nossas vidas para a família que estava longe (só descobri essas cartas há um ano em uma gaveta, uma bela surpresa).
Você conspira que o motivo do Michael Jackson ter tido filhos foi porque ele passou de limusine e viu você passeando comigo no carrinho (só pode ser isso). Você foi paciente comigo misturando alemão e português e decifrando “Watasi”, palavra que eu falava apontando para tudo, que no fim significava “Was ist das?” (“O que é isso?”). Você me ouviu dizer, com muito controle para não rir, “Mãe, você não sabe como é difícil ser criança”.
Você trabalhou por quatro anos em um asilo na Alemanha, e suas economias daquele período foram o suficiente para construir a nossa casa própria no Brasil. Você passou anos procurando emprego quando voltamos em 2005. Trabalhou no censo do IBGE e depois passou em um concurso público para técnica de enfermagem na prefeitura de Curitiba. E hoje, você é uma das pessoas mais confiáveis na Unidade de Pronto Atendimento para cuidar da esterilização dos materiais e do controle da farmácia, o que vem com um custo, como ter que trabalhar o dobro do normal em um momento crítico como esse.
Nos últimos meses, abracei o que nós temos em comum. Não só nossas sombras, como a ansiedade, mas também aprendi a fazer o seu pão, e eu fico preenchida de gratidão por ver como você está orgulhosa de mim por seguir com essa tradição. Eu também estou buscando me conectar com o jardim como você sempre se conectou, usando terra e plantas para te energizarem, e cultivando uma sabedoria intuitiva. Gosto quando nós duas nos envolvemos em alguma atividade que desperte o nosso lado “bruxa”, como você mesma fala. Também acho que minha afinidade com engenharia foi herdada de você, que desmontou uma máquina de lavar e um aparelho de DVD estragados só para ver como funcionavam por dentro.
Hoje eu não posso te abraçar, estamos tentando manter o distanciamento social dentro de casa por conta da sua profissão. Mas saiba que nesse dia das mães, eu estou naquele momento da vida no qual compreendemos nossa mãe, sabemos que ela não é perfeita, e sim humana. Obrigada por poder estar na sua linhagem e por todos os seus ensinamentos, mesmo os silenciosos. Eu te amo e admiro.
Da sua filha,
Sofia