Ando me perguntando onde ficou a criança que fui um dia. Em que parte da vida eu perdi ela. Ou pelo menos partes dela. Essa pergunta surgiu diante da minha desconexão com meu ser criativo. Primeiro eu pensei que eu não tinha mais canais para exercer minha criatividade, mas isso é mentira: Eu escrevo, eu cozinho, eu tiro fotos, eu faço meu bullet journal (obrigada Letícia por conversar comigo e reconhecer essas coisas).
A grande questão é a minha falta de presença quando faço essas coisas. Sinto que estou fazendo sem intuição e sem fluidez. Eu criei regras e horários para minha criatividade. Outra amarra é querer ser “boa” nessas atividades, o que obviamente gera um grande bloqueio.
Eu pintora e meu pai avaliando meus dotes artísticos ao fundo
Quando eu era criança, eu desenhava nas paredes do apartamento (para a tristeza dos meus pais). Eu fazia esculturas de argila dos meus pokemons favoritos, e fazia animais de papel machê. Eu tirava fotos do apartamento, dos meus brinquedos e dos meus amigos com uma câmera analógica. Eu arquitetava casas com LEGO e inventava os mais diversos enredos para a vida das minhas Barbies. Eu vestia as roupas dos meus pais e fazia teatros para eles. Eu fiz um fichário com fotos de diferentes animais que representavam cada um dos meus colegas de classe. Eu e minhas amigas, já no ensino fundamental, escrevemos por meses um livro durante as aulas. Para onde foi toda essa energia criativa?
Curiosa para saber o que estava acontecendo nessa cidade
Na exposição do artista e ativista Ai Weiwei no MON, eu me deparei com a frase “A criatividade faz parte da natureza humana. Só pode ser desaprendida”. A minha interpretação foi o que relatei: vamos crescendo e perdendo a nossa criatividade inata. Já o pai da Barbara, o artista Rogério Borges, veio com uma outra perspectiva: criatividade é desaprender. Desaprender os conceitos que vão nos engessando e que julgam e suprimem qualquer faísca de criatividade que queira surgir. Interessante, não?
Fantasiada de monja?
O que você precisaria desaprender para permitir a criatividade na sua vida? Eu preciso ser menos exigente, voltar a ser criança, ser vulnerável. Eu preciso entender que minha criatividade e como eu exerço ela tem a ver com meu eu mais íntimo antes de mais nada. Para finalizar, queria compartilhar esse poema da Rupi Kaur que fala sobre isso:
sua arte não é a quantidade de pessoas que gostam do seu trabalho sua arte é o que seu coração acha do seu trabalho o que sua alma acha do seu trabalho é a honestidade que você tem consigo e você nunca deve trocar honestidade por identificação
– a todos vocês poetas jovens
Compartilhe nos comentários o que você pensa sobre isso.
Coronavírus é o tema principal das conversas de todo mundo no momento. E desse tema derivam diversos outros. Um deles é a insegurança. Todo mundo está se deparando com esse sentimento, com a falta de controle sobre a própria vida.
Isso me levou a duas reflexões.
A primeira delas foi incentivada pelo meu pai. Como jornalista, ele presenciou várias inseguranças, sendo em relação a doenças endêmicas como AIDS e malária, em relação a guerras, em relação a pobreza, em relação a violência de qualquer tipo. Existem pessoas no mundo que não vivem um dia sem esse sentimento de insegurança. Elas não conhecem o que é ter “controle” sobre suas próprias vidas.
Deve parecer estranho e desconexo falar dessas coisas agora. Mas talvez a nossa situação atual seja o mais próximo que você e eu chegamos da insegurança dessas pessoas. Sentir e compreender isso pode mudar muitas coisas depois dessa quarentena. Pode gerar empatia e reconhecimento de privilégios.
A segunda reflexão é sobre nossa ilusão de controle. Fazemos planos, estabelecemos prazos e chega a pandemia do coronavírus. Já estamos à deriva do acaso e dos outros na nossa vida, mas situações gritantes como essa nos fazem ter certeza que pouquíssimas coisas dependem somente da gente para acontecer.
Então, essa situação toda é um aprendizado sobre desapegar e não sofrer tanto quando as coisas não saem do jeitinho ou na hora que a gente quer. É hora de respirar fundo, ocupar-se com o que te faz bem, e entender que tudo passa, seja bom ou ruim.
É uma lição de paciência, empatia e entrega. É sobre nos entender como parte do meio. É sobre ser coletivo.
Eu tinha escrito um outro texto, mas ele estava vazio, pois eu estava tentando repassar algo que eu não estava sentindo. O tema daquele texto e desse é o mesmo: consciência.
Estive refletindo: porque essa busca por felicidade é tão desgastante? Simplesmente porque ela é limitada e nos faz suprimir outros sentimentos para ter “espaço” para toda essa felicidade que queremos. Não dá certo.
Mas o que buscar então? Minha resposta é a consciência, pois podemos sempre ser mais conscientes de nós e do todo. É entender que todo sentimento, pensamento e estado são impermanentes.
Mas é fácil perder a direção para essa consciência. Tá tudo tão turbulento. Eu, mesmo acreditando nessa busca, ando mergulhada em sentimentos negativos e ansiedade ultimamente.
Engraçado quando sabemos as respostas, mas nos vemos de certa forma bloqueados para agir.
Ando lendo, em doses homeopáticas, o livro Mulheres que correm com os lobos, da psicanalista jungiana Clarissa Pinkola Estés. Ela fala sobre a Mulher Selvagem, esse arquétipo presente dentro de cada mulher, com intuição, com criatividade. E quanto mais leio, vejo como estou desconectada dessas coisas
Também ando fazendo minhas lunações (essas são as que eu uso), um mapeamento do seu ciclo, que rastreia coisas como intuição, criatividade, força de ação, presença, autoestima e energia vital. Além de usar alguns símbolos, é indicado colorir quando coisas assim se manifestam no seu dia. Faz um tempo que vejo essa mandala ficando menos colorida. É um alerta.
E talvez seja um alerta para muitas mulheres e pessoas, já que muitas vezes temos muletas que nos impedem de encarar essa situação. O que você está criando? Podem ser fotografias, textos, esculturas de argila, pinturas, música, vídeos. Você está se conectando com você mesma e com a natureza? O que é sua intuição e o que é você seguindo o que os outros ditam como o certo a fazer?
Esse texto, além de uma reflexão e relato, é um pedido para compartilharem suas histórias, suas formas de conexão e consciência. Comentem!
Dia 13 – Tilcara/Purmamarca/Salinas Grandes (184 km)
Último dia do ano de 2019!
Fomos até o povoado de Purmamarca fazer o Paseo de Los Colorados, um caminho pelas montanhas coloridas.
Almoçamos lhama ao malbec no restaurante Ruta 52. Não tem nada de especial, parece com carne bovina, mas está provado.
Seguimos para o meio das montanhas, pela estrada que leva para o Chile. Ao chegar nas Salinas Grandes, tivemos uma bela surpresa ao ver uma placa de aluguel de bicicletas. Pedalamos por 30 minutos pelas salinas e admiramos a água cristalina que resta depois da retirada do sal.
Compramos nossas lhamas de sal para acompanhar o derretimento delas na umidade curitibana.
Nossa ceia de ano novo provavelmente foi a refeição mais cara de nossas vidas, mas valeu cada peso argentino. Fomos no El nuevo progresso, da chefe Florencia Rodriguez. Ambiente acolhedor com luz de velas e obras de arte. Champanhe, vinhos e demais bebidos à vontade (não foi fácil). A comida era riquísima, como diriam os hermanos.
Nos distanciamos um pouco do centro do povoado e subimos uma montanha para ver os fogos e as estrelas. Foi um belo fim/começo de ano.
Dia 14 – Tilcara
Começamos o dia tranquilos e sem pressa, lendo em casa.
Em seguida, decidimos caminhar 5,6 km morro acima até a Gargante del diablo de Tilcara. O lugar em si só era muito assustador pela profundidade, mas o que foi bonito foi ir até a cachoeira do lugar, apesar da chuva.
O cachorro que nos acompanhou na descida da Garganta del Diablo
Jantamos de NOVO no A la payla, nosso restaurante favorito em Tilcara, após voltarmos exaustos da nossa jornada.
Fomos TENTAR dormir e descansar para encarar a estrada do dia seguinte, mas a noite toda sofremos com um ataque de pernilongos, calor e secura incomparável.
Dia 15 – Tilcara/Pampa de los Guanacos (609 km)
Antes de seguir viagem, fomos até as ruinas do Pucará. Depois das ruinas de Quilmes, achamos um pouco sem graça, mas ainda assim interessante.
No meio do nosso trajeto, já na província Santiago del Estero, enfrentamos a estrada mais esburacada da nossa vida, era melhor andar pelo acostamento. Nesse trecho, rebocamos, por cerca de 15 km, um sacerdote chamado Luis, até a cidade de Monte Quemado.
Decidimos seguir viagem e, já no escuro, estava muito difícil achar uma cidade que tivesse um lugar para dormir, as cidades são bastante escassas ali. Enfim encontramos um lugar em Pampa de los Guanacos.
Dia 16 – Pampa de los Guanacos/Corrientes/Posadas (656 km)
De volta à estrada. Nesse dia eu estava pesquisando todas as nossas curiosidades, e finalmente descobri que os altares e lenços vermelhos que encontrávamos nas estradas eram em homenagem a um homem chamado Gauchito Gil.
Chegamos em Corrientes e vimos a praia de rio embaixo da ponte. Decidimos parar para dar um mergulho. Almoçamos no El Parrilón, uma espécie de churrascaria argentina.
Chegamos no nosso hostel Como en Casa em Posadas. De noite, andamos até a margem do rio Paraná, sentamos no píer e conversamos sobre o que foi nossa viagem e como vemos a América Latina. Jantamos pizza e experimentamos Fernet com Coca, bebida típica (parece Cynar).
Dia 17 – Posadas/San Ignacio/Pato Branco (450 km)
Tomamos um café reforçado com ovos e medialunas no bar Español.
Vestimos nossos looks mais praieiros para ir até a praia de San José, em Encarnación. Saímos da Argentina e fomos barrados na entrada do Paraguai por não ter carteira de vacinação. Queriam propina, mas resolvemos voltar e enfrentar uma hora de fila, além de ter que explicar os carimbos no passaporte.
Seguimos até San Ignacio e visitamos as ruínas jesuítas que existem ali. Almoçamos nosso último chorizo.
Chegando em Bernardo de Irigoyen, cidade fronteiriça com o Brasil, gastamos todos os pesos que nos restavam no mercado.
Chegando em Pato Branco reencontramos Valente, o fiel companheiro de Lucas.
E assim termina nossa jornada de 5596 km e 14 províncias argentinas.
Nosso primeiro dia em Cafayate se resumiu a explorar o seu melhor: os vinhos. Visitamos a Bodega Nanni, a maior entre as orgânicas da região, onde fizemos degustação de vinhos e almoçamos. Tivemos que voltar para casa para fazer um cochilo que nos recuperasse de todo o álcool.
Degustação na Bodega NanniRestaurante da Bodega Nanni
Depois visitamos a bodega Piattelli, um verdadeiro império no meio dos parreirais. Mas a visita não aconteceu por conta de uma dedetização programada.
Vista da Bodega Piattelli
Dia 9 – Cafayate/Quebrada de las Flechas/Quilmes (244 km)
Seguindo uma estrada de terra por muitos quilómetros, chegamos à Quebrada de las Flechas, chamada assim por suas formações rochosas que parecem pontas de flecha. Bem criativo.
Na volta experimentamos o tamal, que é uma espécie de pamonha recheada com carne e temperos.
Rumamos par a Ruina de los Quilmes, um lugar surreal onde há cerca de 500 anos vivia um povo rico em arquitetura, táticas de defesa, agricultura e cultura. As ruinas sobem uma montanha, então lá fomos nós escalar o mais alto que podíamos. Nos sentimos incrivelmente energizados. Lá vimos vicuñas (primas das lhamas) e conhecemos Andreína, uma artista de aquarela simpática e talentosa.
Dia 10 – Cafayate/Quebrada de las conchas (98 km)
O dia começou com uma excursão de carro até a Quebrada de las Conchas, que se chama assim porque conchas e fósseis aquáticos foram encontrados ali. As formações rochosas são decorrentes de lagos que estouraram e a cor avermelhada é por conta da presença de óxido de ferro. Os principais pontos para se visitar são o Anfiteatro e a Garganta del Diablo.
El AnfiteatroEssa não sou eu escalando a Garganta del Diablo, essa sou eu voltando da minha tentativa falha de escalar ela.
O restante do dia foi só compra de artesanatos e de alfajores Calchaquitos, artesanais da região e simplesmente os melhores.
De noite saímos correndo comprar uma pizza, pois nosso anfitrião Marcos passou para nos avisar que ia chover, e quando chove em uma região árida como Cafayate, chove MUITO. Foi o que aconteceu.
Dia 11 – Cafayate/Salta/Tilcara (390 km)
Saímos apressados de casa por nada. Por conta da chuva da noite anterior, a única saída da cidade para o norte estava bloqueada. Foram duas horas esperando em uma fila de carros.
Duas horas nessa fila
Já na estrada, estávamos ouvindo a música tema do filme Relatos Selvagens, e uns 20 minutos depois, vimos uma placa com o nome do filme apontando para uma estrada desativada com a icônica ponte do filme!
Ponte do filme Relatos Selvagens. Fonte: Marian Ve.
Queria agradecer a Lucas por ter insistido em visitar o Museo Arqueológico de Alta Montaña em Salta. Lá vimos uma das três múmias mais bem conservadas do mundo. São três crianças que foram submetidas a rituais religiosas na época do império inca e foram encontradas enterradas no alto de um vulcão, em perfeito estado. Por uma questão de preservação, apenas uma delas fica exposta ao pública de cada vez, então só tivemos oportunidade de conhecer El Niño. Mórbido ou não, é impressionante.
El niño. Fonte: La voz.
Chegamos em Tilcara, um povoado no meio das montanhas áridas e coloridas do norte argentino. Fomos bem recebidos por nossos anfitriões e fomos a um restaurante comer o famoso locro, um ensopado de milho e carne.
Dia 12 – Tilcara/Humahuaca (140 km)
Um pouco da casa dos nossos anfitriõesNossa cara era uma construção típica da região, feita com uma espécie de cana, pedras e adobe.
Decidimos ir até o Mirador de Hornocal, perto do povoado Humahuaca, já que o dia estava bonito. Não seguimos as instruções de Mariana, nossa anfitriã, de levar agasalho. Mascamos folha de coca pela primeira vez, pareceu boldo. Chegamos a 4350 m de altitude, nos embolamos em cobertores e ponchos e nos sentamos com nossas cadeiras de praia para apreciar a vista. Compartilhamos um vinho Portillo malbec. O lugar parecia uma pintura.
Olha isso
Compramos o disco do músico boliviano que estava tocando no restaurante no qual jantamos (“Las cosas son como son cariñito”).
Estreamos jogo de xadrez espanhóis vs índios de Lucas.
No final do ano passado, minha amiga Sheila me fez o convite para acompanhar, por meio de revisões, edições e conversas, a escrita da história dela. Cada pequeno acontecimento que ela narra faz parte de sua formação. Penso que esse projeto é sobre curar, evocar da memória, ser vulnerável, aceitar e ser sensível. Obrigada Sheila, por me deixar fazer parte disso e estar disposta a compartilhar. Segue um trecho, chamado “Ela não me ama”.
Tenho poucas lembranças da minha mãe me fazendo carinho. A primeira vez que questionei o porquê, ouvi a explicação da tia Neia: eu chorava muito nos primeiros anos de vida e isso afastava as pessoas da nossa casa. Ela dizia que minha mãe deixou de ser bem vinda nos lugares, até nos supermercados, por causa do meu choro incessante. Para agravar a situação, minha mãe tinha que ficar comigo no colo sentada no meio fio em frente a nossa casa durante toda a noite para meu pai poder dormir sem ser incomodado por mim. Ela me contou também que certa vez, num momento aparente de desespero, minha mãe chegou a encher o tanque de lavar roupa para me afogar, mas foi impedida pela vizinha.
Passamos muitos anos de médico em médico tentando descobrir o que me fazia chorar. Meu pai chegou a vender uma propriedade para pagar tratamentos. A minha mãe guardava em um baú centenas de exames que fiz nos meus primeiros anos de vida. Mas somente quando eu tinha três anos descobrimos a doença. Identificaram a má formação de um canal que liga o rim à bexiga. O canal não filtrava as impurezas devidamente, me causando muitas dores abdominais, inclusive aumentando enormemente a possibilidade de anemia e outras doenças. A fase seguinte, após essa descoberta, também foi bastante difícil para mim. Tenho muitas lembranças de canos sendo inseridos em mim e eu sendo segurada em macas a força por enfermeiras e médicos. Me lembro de ter a alma invadida nessas sessões. Me lembro até de ver lágrimas nos olhos do meu pai, pela fresta que se formava entre as pessoas que me seguravam na maca. Eu também me lembro de não aguentar mais.
Já maiorzinha, ouvia as versões dos meus avós sobre o porquê do distanciamento entre mim e minha mãe. Um certo dia, enquanto eu balançava na rede, os ouvi falando sobre como custou caro até me ouvirem rir e não mais chorar. Eles repetiram comentários como esse por anos a fio, principalmente nos almoços de domingo em família, falando sobre todo o sofrimento que eu havia instalado na vida dos meus pais.
A grande questão é que ouvi muitas histórias e comentários como esses desde meus seis anos de idade. E eu por muito tempo acreditei que a culpa pela minha mãe não me amar era minha. Me custou décadas para deixar essa culpa ir embora e me sentir digna de qualquer amor.
Fomos para a Feira de San Telmo de antiguidades, cheia de coisas curiosas à venda, onde compramos as cuinhas que nos acompanhariam pelo resto da viagem.
Feria de San Telmo. Fonte: Welcome Argentina.
Finalmente conseguimos encontrar uma lanchonete que vendesse o famoso choripan, um pão com linguiça acompanhado de chimichurri, uma espécie de vinagrete apimentado.
Depois, fomos até o Parque de la Memoria, que fica mais afastado do centro da cidade, na beira do rio. O local preserva a memória de todos aqueles que sofreram as consequências da ditadura militar na Argentina. Na entrada, um monumento com os dizeres “Pensar es un hecho revolucionario”. Lá também visitamos a exposição do fotógrafo Martín Weber “Qual é seu sonho?”, bem emocionante.
Fotografia de Martín Weber, “Yo quisera ser poeta”.
A volta para casa foi uma odisseia. Pegamos um trem perto do estádio do Riverplate, depois pegamos a linha C do metrô e caminhamos mais um pouco. Antes de ir para casa entramos em um restaurante chamado Hierbabuena e aproveitamos o happy hour de aperol. Nessa noite, decidimos comprar empanadas e fizemos uma salada para acompanhar.
Dia 5 – Buenos Aires
Tivemos um papo matinal com Sandra, nossa anfitriã, sobre a situação política na Argentina agora que Alberto Fernandez assumiu. Resumo: só muda o país, os desafios são os mesmos.
Caminhamos até o bairro La boca, onde vimos o estádio La Bombonera e conhecemos o Caminito. Eu fiquei completamente decepcionada. Várias casinhas coloridas e souvenires, nada de mais.
De volta em San Telmo, entramos na loja La casa del dulce de leche e fizemos a festa. Almoçamos merluza com roquefort e chorizo no restaurante Defensa ali perto.
De tarde, fomos até a Librería de Ávila, a mais antiga de Buenos Aires, datada de 1785. O cheirinho é igual dos sebos curitibanos, e eles tem aquelas escadas bonitas para explorar as prateleiras superiores.
Explorando a Librería de Ávila.
Seguimos para o café mais antigo da cidade, o Tortoni, de 1858. Tinha fila para entrar, mas ainda bem que não demorou tanto. Comemos churros e alfajor acompanhados de café. O que mais vale a pena é o visual no interior, me senti realmente transportada para o século XIX.
Fomos para a nossa tão esperada aula de tango com Laura (reservamos pelo Airbnb), uma mulher encantadora com uma sala de aula igualmente encantadora, com janelas grandes e um espelho. Para uma primeira aula, não fomos nada mal. Definitivamente algo que vale a pena fazer em Buenos Aires.
Para completar o dia, comemos na pizzaria La Continental e eu tomei um sorvete de framboesa no Freddo argentino, bem parecido com o nosso.
Dia 6 – Buenos Aires/Córdoba (706 km)
Nos despedimos de Sandra e pé na estrada. MUITO vento e calor.
Chegamos em Córdoba, a segunda maior cidade da Argentina, do tamanho de Curitiba, mais ou menos. Ficamos no Gran Rex Hotel, lugar agradável com preço justo.
Como era véspera de Natal, fomos em busca da nossa ceia. Encontramos um lugar chamado Clayton aberto, cheio de funcionários chineses. O lugar mais parecia uma praça de alimentação, com muita variedade. Óbvio que comemos mais que o necessário, clássico natalino.
Dia 7 – Córdoba/Cafayate (707 km)
Na estrada, começamos a ver muitos animais, como cabras, cavalos, vacas, jegues e ovelhas. Passamos por uma serra sinuosa e tropical, com muitas pessoas parando os carros no acostamento para tomar banho de rio.
As cabras do caminho.
Passamos por uma cidade chamada Tafí del Valle. Lugar lindo, com uma grama verdinha, rochas e um lago. Quase decidimos ficar ali, mas seguimos montanha acima.
Tafí del Valle.
De repente, neblina total. Ainda bem que tínhamos o GPS para nos guiar. O sol reapareceu e estávamos em um vale lindo, com a paisagem beirando o desértico e cheia de cactos.
Logo depois da neblina. Vocês podem ver pelo look que as temperaturas mudaram drasticamente.
Depois de 12 horas de viagem e já escuro, finalmente chegamos em Cafayate. Fomos recebidos por um cachorro animado e por um belo vinho malbec feito artesanalmente por Marcos e Damarys, nossos anfitriões.
Quando viajei com minha amiga Barbara em 2015, ela registrou todos os nossos dias em um diário. Acabei adotando isso para as viagens que fiz depois, e no final de 2019 viajei para a Argentina de carro por 17 dias. Essa é a primeira parte da versão romantizada das minhas anotações, podendo servir de história ou de informação para você, leitor.
Dia 1 – Pato Branco/Concórdia (975 km)
Para quem não conhece a Bozena do Toma lá dá cá, Pato Branco é uma cidade do sudoeste paranaense na qual Lucas nasceu e foi criado. Fomos até lá visitar os familiares por 3 dias antes de seguir rumo à Argentina.
Saímos 6h da manhã em direção à Dionísio Cerqueira, uma cidade a 120 km de Pato Branco e fronteiriça com a cidade argentina de Bernardo de Irigoyen. Depois, descemos eternamente pela Rota Nacional 14. Fora um trecho de alguns km de estrada de chão em reforma, já tivemos um vislumbre do quão boas são as estradas.
Na Argentina existem menos postos de gasolina que no Brasil, então é sempre bom parar para abastecer quando aparecer um. O “império” dos postos é o YPF (Yago Pedro Fernandes, como carinhosamente apelidamos). Neles você sempre vai ter como abastecer água quente para o mate também.
Agua caliente para su mate.
Chegamos em Concórdia lá por umas 21h. A cidade tem águas termais, mas não queríamos investir dinheiro nisso tendo pouco tempo para aproveitar. Nos acomodamos no Hotel Flair, bom e barato, e encerramos o primeiro dia com um sanduíche de milanesa no Sr. Pancho.
Dia 2 – Concórdia/Buenos Aires (437 km)
Descobrimos que o café na Argentina é terrível. Mas existem medialunas para compensar. Descobrimos também que não existem regras de trânsito, especialmente para motociclistas sem placa e sem capacete.
Mais ou menos na metade do caminho, começou a desabar o mundo. Paramos até a chuva dar uma trégua.
Chegamos em Buenos Aires. Cidade monumental, Europa encontra América Latina. Fomos recebidos por nossa querida anfitriã Sandra, no bairro de San Telmo.
Passeamos pelo Puerto Madero, conhecemos a Puente de la Mujer, onde um coral natalino cantava. Logo depois vimos uma aula de zumba ao ar livre. Buenos Aires é cheia de vida.
Escolhemos um restaurante aleatório para jantar, chamado El Refuerzo. MUITO bom, um pouco caro.
Dia 3 – Buenos Aires
Depois de um café da manhã com medialunas recheadas com doce de leite, sofremos para conseguir pegar o ônibus certo. São muitas linhas e muitas pontos de ônibus diferentes.
Fomos até El Ateneo Grand Splendid, uma livraria que surgiu em 2000 após a revitalização de um teatro. Para os amantes de livros ou não, vale a pena. E não se esqueça de olhar para cima.
El Ateneo Grand Splendid
De lá é possível caminhar até o Cementerio de La Recoleta, cheio de mausoléus lindíssimos. É um passeio um pouco mórbido, mas o lugar é realmente impressionante.
Cementerio de la Recoleta
Achamos uma pizzaria chamada Serafin para almoçar pizza e empanadas. Por conta da grande imigração italiana, sua culinária é sensacional na capital portenha.
Seguimos nossa caminhada (Buenos Aires é para ser conhecida a pé, mas dá trabalho) até o MALBA (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires).
É uma pena que estávamos tão exaustos. O MALBA é daqueles museus com poucas exposições, mas muito bem feitas. Tinha a famosa piscina de Leandro Erlich, obras latino-americanas como o Abaporu, da Tarsila do Amaral (que todos já desenhamos na aula de artes), e o artista brasileiro Ernesto Neto Soplo, com sua exposição interativa.
Esse rosto desfigurado sou eu na piscina de Leandro Erlich.
A brasilidade AbaporuSoy arte
Terminamos o dia com pés e pernas cansados, um alfajor encontrado no ônibus e uma janta feita em casa incluindo um belo bife de chorizo.
A saga por Buenos Aires e as outras cidades argentinas continua em outros posts!
Meu pai nasceu em 10 de dezembro de 1939, em Kerzell, um vilarejo alemão minúsculo (não digam isso para ele), que completou 850 anos em 2015. Ele cresceu durante a guerra. Seu pai Richard foi enviado para trabalhar na então chamada Iugoslávia, enquanto sua mãe Maria batalhava para que todos tivessem o que comer em casa.
Depois de terminar a escola, ele estudou filosofia na cidade de Trier, na Alemanha, e entrou no seminário (sim, meu pai foi padre por muitos anos antes de se apaixonar pela minha mãe). Terminou sua formação nos Estados Unidos, e foi estudar teologia no Canadá. Não contente, ele ainda estudou jornalismo em Munique, na Alemanha. Escreveu para diferentes jornais e revistas, morou por dois anos na Tanzânia e depois no Brasil, onde conheceu a minha mãe. Depois que eu nasci, moramos em Munique por oito anos, durante os quais meu pai se aposentou e se tornou “dono de casa”, assumindo até hoje boa parte das tarefas domésticas. Em 2005, nós voltamos para Curitiba. E cá estamos.
O que me impressiona na história do meu pai é a plenitude da sua vida. Ele conheceu cerca de 80 países! Conheceu muitas pessoas, muitas culturas. Ele também é um exemplo de amigo. Até hoje, todo natal ele envia uma carta para cerca de 40 amigos na Alemanha. Ele liga no aniversário de cada parente ou conhecido importante. Ele me ensinou a me importar com minhas amizades, a gostar de viajar, a gostar de escrever, a investir nos meus estudos.
Quando eu era pequena, ele lia para mim toda noite, nós brincávamos de teatro de fantoches, nos fantasiávamos, íamos nadar e comer McDonalds depois, pedalávamos, andávamos de trenó e de patins no inverno. Lembro que quando eu estava grandinha o suficiente para ir sozinha de bicicleta para a escola, fiquei enfurecida quando descobri que meu pai estava me espionando na rua paralela para se certificar que eu ia ficar bem. Hoje em dia ele ainda fica preocupado quando saio de bicicleta, mas acho que não sai mais na minha espreita. Passamos longos cafés da manhã discutindo os mais diversos assuntos, e gosto como as vezes ele até anota minhas opiniões juvenis para incluir elas em seus artigos e projetos de livros.
Sempre foi um pouco assustador ter um pai bem mais velho do que a média. Sempre ouvi pessoas dizendo “o seu avô”. Mas agora que ele chegou aos 80, com espírito, mente e corpos sãos, sei que ter ele como pai é uma fonte de reflexão constante. O que leva alguém a envelhecer bem? Genética? Talvez. Alimentação? Só se cerveja diária for o segredo da longevidade. Sudoku, escrita e leitura? Pode ser. O importante parece ser continuar recebendo estímulos. Precisamos de significado, de pertencimento e de respeito para envelhecermos bem. E quem sabe uma pitada de puro acaso.
Foto da comemoração, já que não é sempre que alguém faz 80 anos.
Quantos livros você leu esse ano? Quantos livros nacionais? Quantos livros de outras culturas? Quantas autoras mulheres? Quantos autores negros? Quantos livros com temática LGBT?
Faz cinco anos que mantenho um histórico de livros lidos. Mas esse ano isso se tornou muito mais significativo, porque me tornei mais consciente sobre o que eu leio.
Sempre fui leitora, mas notei que eu basicamente consumia romances ficcionais norte-americanos. Isso não é inteiramente ruim, e também é consequência de um mercado editorial voltado para essa literatura. Mas ainda bem que ambos estamos mudando.
Esse ano estou buscando mais diversidade no que leio. 19 dos 31 autores que li até agora foram mulheres. Li obras de 14 países diferentes (os norte-americanos continuam em primeiro lugar, não está fácil).
E falando em países, adotei dois projetos do blog Viaggiando, da Camila Navarro. Um deles é o Lendo o Brasil, ou seja, ler uma obra de cada estado brasileiro e distrito federal, que tenham uma temática correlacionada ao local de origem. Os livros nacionais que li esse ano (poucos, confesso) ainda não se enquadram nesse projeto, mas já fiz algumas aquisições promissoras.
O outro projeto é o 198 livros, correspondentes aos 198 países reconhecidos pela ONU. Aqui a ideia é ler um autor que reflita um pouco da história e cultura de seu país. O interessante é sempre contextualizar essas leituras com a história do autor e do país, nem que seja lendo a página do Wikipedia.
Quando vou terminar esse projeto? Impossível dizer, mas já li 6, só faltam 192. Seguem os já lidos, com sinopses adaptadas da Amazon (Black Friday é amanhã, ein):
Camboja:Primeiro mataram meu pai, de Loung Ung (5/5)
Filha de um oficial de alto escalão do governo, Loung Ung teve uma vida privilegiada na capital de Camboja, Phnom Penh, até os cinco anos de idade. Porém, em abril de 1974, o ditador Pol Pot assumiu o poder e liderou um dos regimes mais atrozes da história: o Khmer Vermelho. O exército invadiu a cidade, obrigando a família de Loung a fugir e, eventualmente, a se separar. Enquanto Loung se tornou uma criança-soldado, seus irmãos passaram a viver em um campo de trabalhos forçados. Primeiro mataram meu pai conta a jornada de Loung e de sua família durante esses anos terríveis.
Canadá:Vulgo Grace, de Margaret Atwood (4/5)
A partir de um caso real ocorrido no Canadá na década de 1840, o livro conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão, Thomas Kinnear, e a governanta da casa onde trabalhava, Nancy Montgomery. Em seu esforço para descobrir a verdade, o Dr. Simon Jordan, um jovem médico estudioso de doenças mentais, faz visitas constantes à jovem prisioneira. Teria sido ela ludibriada por James McDermott, humilhada demais por Nancy Montgomery, acometida de um acesso de raiva ou o mundo simplesmente estaria sendo injusto ao condená-la à prisão perpétua?
Estados Unidos:Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou (4,5/5)
Racismo. Abuso. Libertação. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos.
Irã: Persépolis, de Marjane Satrapi (4,5/5)
Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos.
Nigéria:Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie (5/5)
A adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.
Rússia:Ana Kariênina, de Liev Tolstói (3/5)
Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, Anna Kariênina continua a causar espanto. Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, “feito de sombra e de luz”.
Eu acredito na arte como transformador social, pois promove senso crítico e empatia acima de tudo. Qualquer tipo de arte. Por isso, se livros não te motivam, procure a sua forma de arte e diversifique a que você consome.