A Jornada de Dois Ciclistas Amadores em Curitiba

Nossos pedidos a São Pedro tinham sido atendidos. Há dois finais de semana, a previsão era de temporal no domingo (o que se concretizou mais tarde, como vocês lerão). Eu e meu companheiro de pedalada acordamos dispostos por conta do sol que entrava pela janela. Agilizamos um chimarrão como fonte de cafeína, nos equipamos, acertamos o roteiro e sentamos nos nossos selins.

Chimarrão preparatório.

Rumamos sentido Juvevê, saindo da região da Praça do Japão. Quarenta minutos depois, torrando e suando debaixo do sol matinal, chegamos ao primeiro destino, o aHorta Bike Café. Desconto para ciclista, horta comunitária, construção de container e comidinhas deliciosas (COMAM OS CROISSANTS). Tomamos um café da manhã reforçado e nos espreguiçamos nas cadeiras dispostas na grama para ler.

Sofia em uma foto clássica de turista.
A tal da horta comunitária.

Continuamos nossa saga debaixo de um sol do meio dia e eu decidi ir por um caminho alternativo, prolongando em alguns km nosso trajeto até o Parque São Lourenço. A ciclovia, rente ao trilho de trem, passava por um bairro residencial sem nada de muito interessante, e as pernas já estavam implorando por uma pausa.

Depois do Parque São Lourenço, continuamos na ciclovia até Lucas indicar uma rua qualquer, na qual existe uma vendinha, onde paramos para tomar uma água de coco. Nesse momento o sol já tinha sumido, o céu estava com nuvens cada vez mais carregadas e inclusive trovoadas soaram. Pedimos encarecidamente por sacolas plásticas para proteger as coisas na mochila.

Local fornecedor da água de coco e das sacolas plásticas.

Seguimos, porque o objetivo final era chegar na Feira do Largo da Ordem para almoçar um pastel. Na altura do Shopping Mueller, começou o aguaceiro. Estava tão quente antes que fiquei até aliviada com aquele banho cortesia e dei risada da situação. Um moço que passou pela gente de guarda-chuva ainda teve a audácia de desejar uma “Boa tarde” para a dupla encharcada.

Chegando na feira a chuva parou, menos de 10 min depois de ter começado. Não tenho fotos desse momento pois estávamos com aparência lamentável e todos os feirantes já estavam se organizando para ir embora, então corremos para garantir nosso pastel.

Molhados e alimentados, pedalamos até em casa e tiramos o merecido cochilo após quase 30 km de bicicleta.

Revisitando a Casa de Anne Frank

Anne Frank foi uma daquelas pessoas que não viveu para ver o sonho dela se tornando realidade. O seu desejo era publicar um livro depois que a guerra terminasse, baseado no diário que ela manteve entre 12 de junho de 1942 e 1° de agosto de 1944. Seu pai, Otto Frank, único sobrevivente da família, foi quem o fez posteriormente.

Por mais que muitos já tenham ouvido falar de Anne Frank e por mais que muitos já tenham inclusive lido seu diário, vim contar sobre a minha experiência.

Eu nunca tive vontade de ler esse livro. Pensava que uma garota de 12 anos não escreveria tão bem e não soubesse de tantas coisas como soube Anne Frank. Mesmo seu diário tendo sido escrito quase inteiramente dentro de um esconderijo, Anne estudava álgebra (que ela odiava), mitologia, linhagens reais, e estava por dentro dos últimos acontecimentos da guerra e da perseguição aos judeus.

Kitty, sua amiga imaginária e destinatária do seu diário, ficava sabendo de tudo que acontecia no esconderijo: os conflitos, as refeições, as ameaças de serem descobertos. Anne compartilhou sua paixão, alegria, raiva e depressão naquelas páginas, de uma forma visceral e autêntica.

Mas o que tornou minha leitura tão imersiva, além disso tudo que já contei, foi o fato que eu estive lá, no dia 5 de dezembro de 2018.

Entrada para a Casa de Anne Frank, em Amsterdã
Canal que passa na frente da Casa de Anne Frank & Eu

Enquanto Anne descrevia para Kitty como era a casa do endereço Prinsengracht, 263, em Amsterdã, eu conseguia visualizar tudo na minha frente. O canal que passa por ali, a fachada da casa e todo o interior. Ela narrou como se chegava ao Anexo Secreto que ficava atrás de uma estante, e eu fiz aquele caminho. Também contou como colou diversas fotografias e recortes na parede de seu quarto, e eu vi aquelas colagens.

Planta baixa de Prinsengracht, 263, Amsterdã

A Casa de Anne Frank é um dos meus museus favoritos, que fica numa das minhas cidades favoritas. Muitos móveis e objetos foram retirados pelos nazistas, mas algumas coisas foram mantidas e o áudio que te acompanha por toda a visita é de arrepiar e fazer chorar.

Recomendo que todo mundo vá lá um dia, para sentir a energia e força da história dessa garota, dos outros que estavam escondidos com ela e de todos os judeus e outros perseguidos da Segunda Guerra Mundial. E é claro, leia o diário dela, antes ou depois, porque esse era o sonho dela.

América Latina e a língua espanhola

Optar por aprender espanhol foi a melhor escolha que eu fiz esse ano. É uma língua que carrega muita história com ela, falada em 21 países e a segunda mais falada do mundo. Entender todo esse contexto fez eu me encantar, tanto pela língua como pela América Latina.

Duas pessoas me incentivaram a aprender o idioma. Uma delas é Miriam, uma espanhola de Madrid, com o típico jeito latino, sempre calorosa e bem-humorada. A outra pessoa foi Dorella, uma italiana que tinha estado em Santa Fe, na Argentina, em um intercâmbio. Ela era simplesmente apaixonada pelo país. Isso só me motivou mais, pois sempre quis conhecer a Argentina por conta do filme Medianeras, um dos meus favoritos da vida.

Foi assim que eu comecei a refletir que eu não conhecia nada da América Latina e da Espanha, e quanta coisa há para conhecer nesses países, e o quão importante o espanhol é como idioma.

Agora estou no terceiro nível de oito que o CELIN oferece, passando por três professores maravilhosos: Cassio, um brasileiro que fala a variante mexicana; Pablo, um chileno; e Fátima, uma paraguaia.

Além disso, cada unidade do nosso livro aborda um país diferente. E eu notei como temos complexo de vira-lata, principalmente no Brasil, e como vemos muitos desses países como subdesenvolvidos e não lugares riquíssimos em cultura e diversidade. Muitos deles têm uma forte influência indígena, como o Paraguai, onde o guarani também é língua oficial. A professora Fátima tenta nos ensinar algo em guarani de vez em quando, mas vamos nos manter no espanhol que já é difícil o suficiente!

Na aula passada recebemos a visita de um intercambista do Uruguai. Eu sabia muito pouco do país e me surpreendi. As questões sociais são muito desenvolvidas. O uruguaio inclusive disse o quão assustado ele ficou com o machismo brasileiro. Uma curiosidade é o “banimento” do sal na comida servida em estabelecimentos, como uma medida de saúde pública.

A cultura hispânica é um universo maravilhoso a ser explorado. Abri meus olhos para filmes como Machuca, filme chileno sobre a ditadura militar ocorrida no país; El secreto de sus ojos, filme argentino de suspense policial; Mi obra maestra, filme argentino que se passa na região de Salta; Dolor y Gloria, história autobiográfica do diretor espanhol Almodóvar.

E sem falar dos livros! Encontrei em um sebo uma edição de La casa de los espíritus, da chilena Isabel Allende, que pertencia a uma tal de Gabriela Casagrande, do Panamá. 

Mas meu primeiro livro em espanhol está sendo El libro de los abrazos, de Eduardo Galeano, escritor uruguaio, um presente do maravilhoso rapaz que namoro. São várias historinhas sobre diferentes países, pessoas e épocas da América Latina.

Como o próprio Galeano disse na entrevista abaixo, não se pode analisar a América Latina de fora ou por cima, somente de dentro e por baixo. Por isso é tão interessante estudar o espanhol e entender esses países tão diversos que o falam.

Dois meses de BDNT

Turma de quarta-feira | 1° mês

Eu entrei em um processo. Um processo de descoberta, introspecção, observação, empatia e libertação. Um processo no qual me percebi mulher, ser humano. Um processo no qual eu comecei a problematizar o “ah, isso é besteira”. Um processo no qual eu me dei conta do quão pequena é a bolha na qual eu vivo, e quantos privilégios eu tenho. E sim, esse processo está acontecendo por meio da dança.

Eu espero que minha explicação e relato façam jus ao projeto da Jade, idealizadora do BDNT. Há quase 5 anos ela dá aulas de dança nesse espaço acolhedor, trazendo seu conhecimento de psicologia corporal para libertar as tensões do corpo e da mente. Já aviso que não se trata da dança pela dança e os estilos musicais e os shortinhos não tem nada de promíscuo ou como seus preconceitos queiram chamar.

Cada menina tem o seu propósito e as suas inseguranças quando está ali. Causa feminista, autoestima, relaxamento. O significado é você quem dá. Eu entrei no BDNT para poder me identificar com algo e desenvolver minha expressão corporal.

Na minha primeira aula, assim como toda primeira aula do mês, fizemos uma roda de conversa e a Jade nos fez uma pergunta. A pergunta era “Se você pudesse fazer o que você quiser, o que você faria?”. Fui a segunda a responder e disse que se eu pudesse não ter que lidar com o fim da faculdade e a pressão de conseguir um emprego, eu botaria o mochilão nas costas e viajaria a América do Sul. Outras trinta meninas compartilharam suas vontades, e eu me identifiquei em tantas respostas, me emocionei com outras e notei o quão complexas eram cada uma daquelas mulheres. Não sei vocês, mas eu muitas vezes tento simplificar as pessoas, como se eu entendesse elas perfeitamente. Quanta ingenuidade, não é mesmo?

Então a dança começou. Eu sempre me considerei uma péssima dançarina e dizia que era culpa da descendência ucraniana e alemã. Mas vocês têm ideia de quanta tensão a gente concentra nos nossos ombros e no nosso quadril? A verdade é que minha falta de habilidade, além da falta de prática, é ocasionada por estresse e repressão acumulados. A cada aula eu me solto mais, e desde o primeiro dia deixei a vergonha de lado e participei das gravações de vídeo para ver minha evolução. A primeira vez que vi meu vídeo, eu chorei. Chorei de alegria, porque eu estava menos ridícula do que eu achei que estaria.

Turma de sábado | 2° mês

No segundo mês, a pergunta inicial foi “O que você faz para se sentir bem?”. Foi uma pergunta que me acertou em cheio. Eu sou a pessoa que faz acupuntura, yoga, pedala, lê e não trabalha, e mesmo assim, mesmo fazendo um esforço para fazer coisas que me façam bem, não consigo estar presente e estou sempre tensa. E justo naquela semana eu estava frustrada com isso e vi quantas meninas passam pela mesmíssima coisa. Um momento aqui para expressar minha gratidão de ter mulheres como Cinthia no nosso grupo. Ela começou a resposta dela com “bebo uma taça de vinho tinto todas as noites”.

Nem toda semana é fácil dançar e esse processo não é uma escadinha, é uma montanha-russa. Um dia me sinto plena e cheia da malemolência, no outro dia tenho vontade de chorar por enfrentar as limitações do meu corpo. Mas é um processo, como falei no início, no qual eu devo aprender a me respeitar e respeitar quem está ali comigo, pois somos todas mulheres, com histórias únicas.

Eu sempre li sobre e me considerei feminista, mas achava um exagero colocar o assunto tão em pauta. Talvez porque eu nunca sofri grandes consequências e não me dava conta dos bloqueios que relacionamentos e convívios sociais me trouxeram. Hoje vejo a importância de me impor nesse aspecto e dar voz e espaço às mulheres ao meu redor, sem preconceitos, competição ou repressões entre nós mesmas. O mundo lá fora já é cruel o suficiente.

E eu encerro agradecendo a Jade, por fazer esse projeto acontecer, as meninas da turma de quarta e sábado, que fizeram eu me sentir tão acolhida, a Barbara, que topou entrar nessa comigo e é minha companheira oficial de sorvete pós-BDNT, e a Lisi e Elis, que me inspiraram a fazer parte disso. Até agora, foram duas horas semanais em dois meses que desconstruíram muita coisa.

Até logo, Lisi

É uma pena.

Quarta passada, dia 28 de agosto, Lisi embarcou em um avião para a Alemanha para passar duas semanas com o marido e sua família, e depois ela vai para os Estados Unidos, na expectativa de passar dois anos trabalhando por lá antes de definitivamente se estabelecer em terras germânicas.

A pena da qual falei não está em nada disso, e sim no fato de que não vai mais ter Lisi por aqui, e é incerto quando vou ver ela de novo. Não sabemos se nosso sonho de fazer um mestrado de comunidades sustentáveis na Noruega irá vingar.

Eu conheci ela na Novozymes durante nosso estágio, e mesmo de times diferentes, as bancadas onde trabalhávamos tinham um vão que nos deixava cara a cara com a outra. Papo vem, papo vai, estava ativado o meu modo “quero ser amiga dessa pessoa”. No último dia dela no final de 2017, ela me deu um abraço apertado, me desejou muito sucesso e nos prometemos que um dia sairíamos para tomar um café.

Esse dia chegou mais de um ano depois, no dia 16 de março de 2019, depois de algumas remarcações. Fomos no Hanuman Café, um local com uma vibe muito relaxada e com bowls de frutas deliciosos. Conversamos por três horas, nos (re)conhecendo e percebendo muitas semelhanças de história, vontades e formas de ser.

O triste é que, apesar dessa simpatia toda, Lisi já estava com os dias contados por aqui e uma vida lá fora planejada.

Nos vimos de novo em junho, no Barista Coffee Bar, que tem um café sensacional e um croque monsieur (basicamente um misto quente com MUITO queijo) que nem sei o que dizer sobre. E mais uma vez, passamos boas horas botando o papo em dia.

Alguns dias antes de ir embora, a Lisi fez uma festa de despedida. Por mais que pareça estranho, já que saímos tão poucas vezes, meus olhos encheram de lágrimas com o discurso dela durante a festa. Tive vontade de chorar porque vejo muito da Lisi em mim, e considero ela uma mulher incrível, muito intensa e muito decidida. Foi ela que me fez repensar muitas coisas sobre minha família e minha profissão. Ela também foi quem mais me inspirou a participar do BDNT, um grupo de dança que é um espaço onde posso ser eu mesma.

Dois dias antes de viajar, almoçamos juntas no Veg Veg, um lugar 100% vegano. Debaixo daquele guarda-sol, com o sol indo e vindo, eu, ela, Tristan e Lucas falamos principalmente do futuro, do que nos aguarda pela frente. Uma conversa “frio na barriga” no bom sentido.

Esse texto, que foi uma mistura de relato e indicação de lugares para ir em Curitiba, é para dizer obrigada e até logo, Lisi.

Descoberta gastronômica no centro de Curitiba

Sinal vermelho, sem pressa. Olhei um pouco em volta. Rua Tibagi, atrás do Teatro Guaíra. Do meu lado da rua, um portão branco aberto, tomado por plantas que me chamaram a atenção naquela rua cinza. Uma placa turquesa com laranja anuncia: “Mafalda Café Bistrô”. Apoiado na calçada, o cardápio do dia descrito em giz, anunciando que o buffet livre para estudantes é 13 reais. Memorizei a informação e o local e segui no sinal verde.

Convidei Lucas para explorarmos o lugar. Resolvi não pesquisar nada sobre antes, sejam fotos do interior ou avaliações de clientes. Queria ter a experiência pura. Entramos pela porta estreita e nos deparamos com um lugar extremamente acolhedor.

Para começar que a entrada pequena é mera fachada, existem pelo menos 4 cômodos onde você pode se sentar, um deles sendo um quintal muito simpático cheio de plantas. E tudo é decorado de uma maneira singular, com muitas influências francesas (os donos se inspiraram nos clássicos bistrôs) e latinoamericanas. E a trilha sonora é excelente.

Sentamos no lugar da foto que segue, com um papel de parede florido, azulejos com relevo e uma parede escrita com giz. Para mim tem um toque de casa de vó. Ultimamente, por algum motivo, muitos lugares e cheiros me remetem à casa dos meus avós, onde eu passava minhas férias quando era criança.

Mas e a comida? Depois que me encantei pelo lugar, fomos nos servir no buffet. Claramente acabei com a opção livre de estudante, já que Sofia não come pouco. Cada dia da semana o buffet tem uma influência étnica diferente, mas sempre vegetariano no horário de almoço. Tem um dia afrobrasileiro, por exemplo. Sempre que fui também tinha um suco de gengibre com limão feito por eles mesmos. Em resumo, refeição incrível, completíssima e sem carne.

Convido vocês a conhecerem esse cantinho especial no centro de Curitiba, assim como outros (Café Tiramisu merece ser citado). Existem muitos lugares com conceitos diferentes, que entregam comida de qualidade, por preços justos e em ambientes que te energizam. E mesmo que a gente tenha passado 1000 vezes em uma mesma rua, olhar ela por outros ângulos é uma deixa para descobrir novos lugares.

Manifesto de Antônia

Há 17 anos, os pais da Sofia decidiram tirar as rodinhas da bicicleta dela. Primeiro eles seguraram na garupa enquanto ela pedalava, para evitar que ela caísse. Mas em algum momento, eles soltaram.

E ela nem percebeu. Ela estava aproveitando o vento que batia no seu rosto da maneira singular que só acontece quando pedalamos. Assim que ela notou a sua liberdade sobre duas rodas, se assustou e perdeu o equilíbrio. Nada como o primeiro tombo de bicicleta.

A Sofia não teve mais uma bicicleta nos últimos 14 anos. Era perigoso andar em Curitiba, todos diziam. E ela também tinha um pouco de medo. E quando não tivesse ciclovia? Andar no meio dos carros? Que loucura!

Mas ela queria aderir à causa da mobilidade urbana e incentivar o ciclismo. Por isso, há algumas semanas, ela resolveu me procurar na Bicicletaria Cultural, um local que defende o pertencimento do cidadão ao espaço urbano. Lá você encontra de tudo um pouco: cultura, serviços e bicicletas como eu.

Na primeira vez que a Sofia foi lá, ela não me encontrou, mas na segunda vez fomos devidamente apresentadas. Eu e ela soubemos na hora que fomos feitas uma para a outra.

Eu não sou tão nova assim, mas recebi uma bela reformada. Sou preta, minimalista e com um toque retrô. A Sofia comprou alguns acessórios para mim. E pode ser que eu ainda ganhe uma cestinha! Aí embaixo vai uma foto minha!

Quando saímos da Bicicletaria, a Sofia estava um pouco insegura e com medo. Mas estávamos bem acompanhadas por uma dupla que já entendia como funcionava se locomover em Curitiba sobre duas rodas. E não é que foi bem mais tranquilo do que ela pensou? Logo ela estava disfrutando da liberdade que só uma bicicleta proporciona e vendo sua cidade por uma nova perspectiva.

Para quem quiser saber mais sobre mobilidade urbana em Curitiba, a UFPR desenvolveu um programa chamado Ciclovida, disponível no link http://www.ciclovida.ufpr.br/.

Em caso de dúvida, pedale.

Escrita no Solar do Rosário

Se esse blog fosse um experimento, eu seria o objeto de estudo. Estou explorando minha escrita e a mim mesma. Quero, um dia, poder me ver em forma de palavras.

Faz um tempo que eu estava em busca de um curso de escrita criativa, justamente para aprender mais sobre. Foi aí que encontrei os cursos do Solar do Rosário, a construção rosa bebê antiga que fica no Largo da Ordem.

Matriculada em “A arte de escrever”, cheguei na primeira aula e me vi rodeada por três ou quatro pessoas da minha idade e muitos senhores. Sim, a faixa etária era + 60. Meu impulso inicial foi pensar “O que é que eu to fazendo aqui?”.

Falamos de criatividade, língua portuguesa, figuras de linguagem e editoras. Em todas as aulas, escrevíamos um ou mais parágrafos sobre um tema e devíamos lê-lo em voz alta.

Eu não sabia desse detalhe na primeira vez. A proposta era continuar a frase “Da janela do meu quarto”. Escrevi algo curto e simples. Parecia tosco, parecia ainda pior depois de outras pessoas lerem os seus próprios textos. A comparação era palpável.

Os senhores que citei tinham uma criatividade e uma leveza no seu estilo de escrita que eram invejáveis. A cada texto eu me surpreendia mais e mais com eles. E isso me levou a pensar: o que eu não estava fazendo?

Isso me lembrou de duas situações que passei em relação à minha escrita. No colégio, na aula de redação, a professora disse que sentia quando eu estava escrevendo sobre pressão, e meu texto só não ficava bom. O mesmo aconteceu há alguns meses, quando uma amiga me propôs escrever para uma revista na qual ela trabalhava. Enviei dois textos para avaliação, e ela e a chefe consideraram que de alguma forma faltava vida no que eu escrevi.

Escrita é arte ou técnica? Questionamos isso durante o curso. Eu penso que tem um pouco dos dois. Sou imediatista, quero escrever bem, mas é a prática que nos leva a arranjar boas frases e desenvolver um estilo próprio.

Além disso, como eu falei para a professora (Claudia Moreira, jornalista manauense muito querida), eu sinto um universo dentro de mim, de sentimentos e de ideias. Mas o que eu escrevo parece muitas vezes vazio desse todo. E essa falta de identificação me incomoda. Claudia me deu um conselho nada fácil: escreva, escreva muito.

A pressa, a vergonha e o medo não vão me ajudar a escrever mais e/ou melhor. Foi isso que Claudia e os senhores de mais de 60 anos me ensinaram. No fim, deixou de ser comparação e passou a ser inspiração.

Ser metamorfose ambulante

Meu amigo Thibault, do qual já falei em outra postagem, está em uma fase incerta sobre suas opiniões. Nós sempre debatemos temas por áudios no whats, o que pode ser o pesadelo de muitos, mas é nossa forma favorita de conversar.

Dessa vez, o tema foi a opinião e a verdade.

É tachado como absurdo alguém decidir ser neutro sobre determinado assunto. Mal informado. Ignorante. Desinteressado. Esses são os rótulos. Tudo parece ter uma polarização muito forte, não há certo no errado e errado no certo. É preto no branco. Cinza e outras cores? Impossível.

Outro absurdo é mudar de opinião. É preciso argumentar e defender algo sem questionamentos. Um vídeo que Thibault me mandou sobre o assunto questionava o fato de desconsiderarmos a verdade, simplesmente queremos defender aquilo no que acreditamos.

Eu sou uma pessoa que muda de opinião ou não tem opinião formada sobre muitas coisas. Muitas vezes isso é visto como indecisão e passividade. Mas o exercício que eu pratico é deixar com que as coisas cheguem até mim, e eu tento observar elas ao invés de imediatamente julgar elas como certas ou erradas, boas ou más.

Mas se opinar pode nos cegar, o que é a verdade? O que concluímos sobre é que não existe uma verdade única. Tudo é impermanente. Além disso, temos limitações perceptivas e cognitivas. Quebramos tantas “verdades” no campo da ciência: a terra era dita plana, o átomo era maciço, a fermentação era espontânea. Então pensem no que diz respeito ao ser humano. A verdade tem contexto histórico, socioeconômico, cultural… Ela é plural e não singular.

Se as verdades universais mudam, quem somos nós para pensarmos que o que acreditamos não pode caducar? Como diria Raul Seixas, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Essa foi a nossa opinião sobre não ter opinião e sobre o que acreditamos ser verdade sobre a verdade. Muito provavelmente amanhã a gente mude de opinião sobre isso.

Preste atenção aos dias comuns

Há quem diga que os momentos mais felizes da nossa vida estão em dias “grandiosos”. Aniversários, ano novo, finais de semana. Os dias em que prometemos a nós mesmos algo especial.

Mas a nossa expectativa e tentativa de transformar aquelas 24 horas em algo memorável muitas vezes não dá certo, o dia mal nos preenche, só sugou nossa energia.

Talvez a gente deva prestar mais atenção aos dias quaisquer. Ali estão momentos que nos fazem sentir intensos e que silenciam, por dentro e por fora, o que impede nossa felicidade: nós mesmos.

É se permitir tropeçar no detalhe, no efêmero, no impermanente. Encontrar o que não estávamos procurando, o acaso, ou o que de forma bonita chamamos serendipidade.

Nós estamos tão imersos no objetivo de sermos felizes a todo momento, que aqueles instantes, aquelas experiências sem retoque, passam e nós ficamos de bobeira.

Hoje, por exemplo, eu estou com uma baita gripe. Reclamei? Claro. Mas também fiz um chá de hibisco com gengibre. Aproveitei o inverno curitibano e saí tomar um sol com meus cachorros. Li um artigo da revista “Pernambuco”, deliciada com a escrita fluída e calorosa nordestina.

Poderia ter sido um dia qualquer, mas busquei não o subestimar. Respeitei o ritmo do meu corpo, e nesse compasso fui descobrindo a beleza oculta nesse comum dia.

Dê intenção aos seus dias. Ou melhor, dê intenção aos seus sentidos. Toque, cheire, olhe, ouça e saboreie de forma consciente. Assim, a felicidade se torna muito mais perceptível e muito menos inalcançável.