Onde ficou aquela criança?

Para quê pincel?

Ando me perguntando onde ficou a criança que fui um dia. Em que parte da vida eu perdi ela. Ou pelo menos partes dela. Essa pergunta surgiu diante da minha desconexão com meu ser criativo. Primeiro eu pensei que eu não tinha mais canais para exercer minha criatividade, mas isso é mentira: Eu escrevo, eu cozinho, eu tiro fotos, eu faço meu bullet journal (obrigada Letícia por conversar comigo e reconhecer essas coisas).

A grande questão é a minha falta de presença quando faço essas coisas. Sinto que estou fazendo sem intuição e sem fluidez. Eu criei regras e horários para minha criatividade. Outra amarra é querer ser “boa” nessas atividades, o que obviamente gera um grande bloqueio.

Eu pintora e meu pai avaliando meus dotes artísticos ao fundo

Quando eu era criança, eu desenhava nas paredes do apartamento (para a tristeza dos meus pais). Eu fazia esculturas de argila dos meus pokemons favoritos, e fazia animais de papel machê. Eu tirava fotos do apartamento, dos meus brinquedos e dos meus amigos com uma câmera analógica. Eu arquitetava casas com LEGO e inventava os mais diversos enredos para a vida das minhas Barbies. Eu vestia as roupas dos meus pais e fazia teatros para eles. Eu fiz um fichário com fotos de diferentes animais que representavam cada um dos meus colegas de classe. Eu e minhas amigas, já no ensino fundamental, escrevemos por meses um livro durante as aulas. Para onde foi toda essa energia criativa?

Curiosa para saber o que estava acontecendo nessa cidade

Na exposição do artista e ativista Ai Weiwei no MON, eu me deparei com a frase “A criatividade faz parte da natureza humana. Só pode ser desaprendida”. A minha interpretação foi o que relatei: vamos crescendo e perdendo a nossa criatividade inata. Já o pai da Barbara, o artista Rogério Borges, veio com uma outra perspectiva: criatividade é desaprender. Desaprender os conceitos que vão nos engessando e que julgam e suprimem qualquer faísca de criatividade que queira surgir. Interessante, não?

Fantasiada de monja?

O que você precisaria desaprender para permitir a criatividade na sua vida? Eu preciso ser menos exigente, voltar a ser criança, ser vulnerável. Eu preciso entender que minha criatividade e como eu exerço ela tem a ver com meu eu mais íntimo antes de mais nada. Para finalizar, queria compartilhar esse poema da Rupi Kaur que fala sobre isso:

sua arte
não é a quantidade de pessoas
que gostam do seu trabalho
sua arte
é
o que seu coração acha do seu trabalho
o que sua alma acha do seu trabalho
é a honestidade
que você tem consigo
e você
nunca deve
trocar honestidade
por identificação

– a todos vocês poetas jovens

Compartilhe nos comentários o que você pensa sobre isso.

Sobre a insegurança

Coronavírus é o tema principal das conversas de todo mundo no momento. E desse tema derivam diversos outros. Um deles é a insegurança. Todo mundo está se deparando com esse sentimento, com a falta de controle sobre a própria vida.

Isso me levou a duas reflexões.

A primeira delas foi incentivada pelo meu pai. Como jornalista, ele presenciou várias inseguranças, sendo em relação a doenças endêmicas como AIDS e malária, em relação a guerras, em relação a pobreza, em relação a violência de qualquer tipo. Existem pessoas no mundo que não vivem um dia sem esse sentimento de insegurança. Elas não conhecem o que é ter “controle” sobre suas próprias vidas.

Deve parecer estranho e desconexo falar dessas coisas agora. Mas talvez a nossa situação atual seja o mais próximo que você e eu chegamos da insegurança dessas pessoas. Sentir e compreender isso pode mudar muitas coisas depois dessa quarentena. Pode gerar empatia e reconhecimento de privilégios.

A segunda reflexão é sobre nossa ilusão de controle. Fazemos planos, estabelecemos prazos e chega a pandemia do coronavírus.  Já estamos à deriva do acaso e dos outros na nossa vida, mas situações gritantes como essa nos fazem ter certeza que pouquíssimas coisas dependem somente da gente para acontecer.

Então, essa situação toda é um aprendizado sobre desapegar e não sofrer tanto quando as coisas não saem do jeitinho ou na hora que a gente quer. É hora de respirar fundo, ocupar-se com o que te faz bem, e entender que tudo passa, seja bom ou ruim.

É uma lição de paciência, empatia e entrega. É sobre nos entender como parte do meio. É sobre ser coletivo.

Busca por consciência

Eu tinha escrito um outro texto, mas ele estava vazio, pois eu estava tentando repassar algo que eu não estava sentindo. O tema daquele texto e desse é o mesmo: consciência.

Estive refletindo: porque essa busca por felicidade é tão desgastante? Simplesmente porque ela é limitada e nos faz suprimir outros sentimentos para ter “espaço” para toda essa felicidade que queremos. Não dá certo.

Mas o que buscar então? Minha resposta é a consciência, pois podemos sempre ser mais conscientes de nós e do todo. É entender que todo sentimento, pensamento e estado são impermanentes.

Mas é fácil perder a direção para essa consciência. Tá tudo tão turbulento. Eu, mesmo acreditando nessa busca, ando mergulhada em sentimentos negativos e ansiedade ultimamente.

Engraçado quando sabemos as respostas, mas nos vemos de certa forma bloqueados para agir.

Ando lendo, em doses homeopáticas, o livro Mulheres que correm com os lobos, da psicanalista jungiana Clarissa Pinkola Estés. Ela fala sobre a Mulher Selvagem, esse arquétipo presente dentro de cada mulher, com intuição, com criatividade. E quanto mais leio, vejo como estou desconectada dessas coisas

Também ando fazendo minhas lunações (essas são as que eu uso), um mapeamento do seu ciclo, que rastreia coisas como intuição, criatividade, força de ação, presença, autoestima e energia vital. Além de usar alguns símbolos, é indicado colorir quando coisas assim se manifestam no seu dia. Faz um tempo que vejo essa mandala ficando menos colorida. É um alerta.

E talvez seja um alerta para muitas mulheres e pessoas, já que muitas vezes temos muletas que nos impedem de encarar essa situação. O que você está criando? Podem ser fotografias, textos, esculturas de argila, pinturas, música, vídeos. Você está se conectando com você mesma e com a natureza? O que é sua intuição e o que é você seguindo o que os outros ditam como o certo a fazer?

Esse texto, além de uma reflexão e relato, é um pedido para compartilharem suas histórias, suas formas de conexão e consciência. Comentem!

Ela não me ama

No final do ano passado, minha amiga Sheila me fez o convite para acompanhar, por meio de revisões, edições e conversas, a escrita da história dela. Cada pequeno acontecimento que ela narra faz parte de sua formação. Penso que esse projeto é sobre curar, evocar da memória, ser vulnerável, aceitar e ser sensível. Obrigada Sheila, por me deixar fazer parte disso e estar disposta a compartilhar. Segue um trecho, chamado “Ela não me ama”.

Tenho poucas lembranças da minha mãe me fazendo carinho. A primeira vez que questionei o porquê, ouvi a explicação da tia Neia: eu chorava muito nos primeiros anos de vida e isso afastava as pessoas da nossa casa. Ela dizia que minha mãe deixou de ser bem vinda nos lugares, até nos supermercados, por causa do meu choro incessante. Para agravar a situação, minha mãe tinha que ficar comigo no colo sentada no meio fio em frente a nossa casa durante toda a noite para meu pai poder dormir sem ser incomodado por mim. Ela me contou também que certa vez, num momento aparente de desespero, minha mãe chegou a encher o tanque de lavar roupa para me afogar, mas foi impedida pela vizinha.

Passamos muitos anos de médico em médico tentando descobrir o que me fazia chorar. Meu pai chegou a vender uma propriedade para pagar tratamentos. A minha mãe guardava em um baú centenas de exames que fiz nos meus primeiros anos de vida. Mas somente quando eu tinha três anos descobrimos a doença. Identificaram a má formação de um canal que liga o rim à bexiga. O canal não filtrava as impurezas devidamente, me causando muitas dores abdominais, inclusive aumentando enormemente a possibilidade de anemia e outras doenças. A fase seguinte, após essa descoberta, também foi bastante difícil para mim. Tenho muitas lembranças de canos sendo inseridos em mim e eu sendo segurada em macas a força por enfermeiras e médicos. Me lembro de ter a alma invadida nessas sessões. Me lembro até de ver lágrimas nos olhos do meu pai, pela fresta que se formava entre as pessoas que me seguravam na maca. Eu também me lembro de não aguentar mais. 

Já maiorzinha, ouvia as versões dos meus avós sobre o porquê do distanciamento entre mim e minha mãe. Um certo dia, enquanto eu balançava na rede, os ouvi falando sobre como custou caro até me ouvirem rir e não mais chorar. Eles repetiram comentários como esse por anos a fio, principalmente nos almoços de domingo em família, falando sobre todo o sofrimento que eu havia instalado na vida dos meus pais. 

A grande questão é que ouvi muitas histórias e comentários como esses desde meus seis anos de idade. E eu por muito tempo acreditei que a culpa pela minha mãe não me amar era minha. Me custou décadas para deixar essa culpa ir embora e me sentir digna de qualquer amor. 

Meu pai fez 80 anos

Meu pai nasceu em 10 de dezembro de 1939, em Kerzell, um vilarejo alemão minúsculo (não digam isso para ele), que completou 850 anos em 2015. Ele cresceu durante a guerra. Seu pai Richard foi enviado para trabalhar na então chamada Iugoslávia, enquanto sua mãe Maria batalhava para que todos tivessem o que comer em casa.

Depois de terminar a escola, ele estudou filosofia na cidade de Trier, na Alemanha, e entrou no seminário (sim, meu pai foi padre por muitos anos antes de se apaixonar pela minha mãe). Terminou sua formação nos Estados Unidos, e foi estudar teologia no Canadá. Não contente, ele ainda estudou jornalismo em Munique, na Alemanha. Escreveu para diferentes jornais e revistas, morou por dois anos na Tanzânia e depois no Brasil, onde conheceu a minha mãe. Depois que eu nasci, moramos em Munique por oito anos, durante os quais meu pai se aposentou e se tornou “dono de casa”, assumindo até hoje boa parte das tarefas domésticas. Em 2005, nós voltamos para Curitiba. E cá estamos.

O que me impressiona na história do meu pai é a plenitude da sua vida. Ele conheceu cerca de 80 países! Conheceu muitas pessoas, muitas culturas. Ele também é um exemplo de amigo. Até hoje, todo natal ele envia uma carta para cerca de 40 amigos na Alemanha. Ele liga no aniversário de cada parente ou conhecido importante. Ele me ensinou a me importar com minhas amizades, a gostar de viajar, a gostar de escrever, a investir nos meus estudos.

Quando eu era pequena, ele lia para mim toda noite, nós brincávamos de teatro de fantoches, nos fantasiávamos, íamos nadar e comer McDonalds depois, pedalávamos, andávamos de trenó e de patins no inverno. Lembro que quando eu estava grandinha o suficiente para ir sozinha de bicicleta para a escola, fiquei enfurecida quando descobri que meu pai estava me espionando na rua paralela para se certificar que eu ia ficar bem. Hoje em dia ele ainda fica preocupado quando saio de bicicleta, mas acho que não sai mais na minha espreita. Passamos longos cafés da manhã discutindo os mais diversos assuntos, e gosto como as vezes ele até anota minhas opiniões juvenis para incluir elas em seus artigos e projetos de livros.

Sempre foi um pouco assustador ter um pai bem mais velho do que a média. Sempre ouvi pessoas dizendo “o seu avô”. Mas agora que ele chegou aos 80, com espírito, mente e corpos sãos, sei que ter ele como pai é uma fonte de reflexão constante. O que leva alguém a envelhecer bem? Genética? Talvez. Alimentação? Só se cerveja diária for o segredo da longevidade. Sudoku, escrita e leitura? Pode ser. O importante parece ser continuar recebendo estímulos. Precisamos de significado, de pertencimento e de respeito para envelhecermos bem. E quem sabe uma pitada de puro acaso.

Foto da comemoração, já que não é sempre que alguém faz 80 anos.

Você é diverso no que lê?

Quantos livros você leu esse ano? Quantos livros nacionais? Quantos livros de outras culturas? Quantas autoras mulheres? Quantos autores negros? Quantos livros com temática LGBT?

Faz cinco anos que mantenho um histórico de livros lidos. Mas esse ano isso se tornou muito mais significativo, porque me tornei mais consciente sobre o que eu leio.

Sempre fui leitora, mas notei que eu basicamente consumia romances ficcionais norte-americanos. Isso não é inteiramente ruim, e também é consequência de um mercado editorial voltado para essa literatura. Mas ainda bem que ambos estamos mudando.

Esse ano estou buscando mais diversidade no que leio. 19 dos 31 autores que li até agora foram mulheres. Li obras de 14 países diferentes (os norte-americanos continuam em primeiro lugar, não está fácil).

E falando em países, adotei dois projetos do blog Viaggiando, da Camila Navarro. Um deles é o Lendo o Brasil, ou seja, ler uma obra de cada estado brasileiro e distrito federal, que tenham uma temática correlacionada ao local de origem. Os livros nacionais que li esse ano (poucos, confesso) ainda não se enquadram nesse projeto, mas já fiz algumas aquisições promissoras.

O outro projeto é o 198 livros, correspondentes aos 198 países reconhecidos pela ONU. Aqui a ideia é ler um autor que reflita um pouco da história e cultura de seu país. O interessante é sempre contextualizar essas leituras com a história do autor e do país, nem que seja lendo a página do Wikipedia.

Quando vou terminar esse projeto? Impossível dizer, mas já li 6, só faltam 192. Seguem os já lidos, com sinopses adaptadas da Amazon (Black Friday é amanhã, ein):

Camboja: Primeiro mataram meu pai, de Loung Ung (5/5)

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Filha de um oficial de alto escalão do governo, Loung Ung teve uma vida privilegiada na capital de Camboja, Phnom Penh, até os cinco anos de idade. Porém, em abril de 1974, o ditador Pol Pot assumiu o poder e liderou um dos regimes mais atrozes da história: o Khmer Vermelho. O exército invadiu a cidade, obrigando a família de Loung a fugir e, eventualmente, a se separar. Enquanto Loung se tornou uma criança-soldado, seus irmãos passaram a viver em um campo de trabalhos forçados. Primeiro mataram meu pai conta a jornada de Loung e de sua família durante esses anos terríveis.

Canadá: Vulgo Grace, de Margaret Atwood (4/5)

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A partir de um caso real ocorrido no Canadá na década de 1840, o livro conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão, Thomas Kinnear, e a governanta da casa onde trabalhava, Nancy Montgomery. Em seu esforço para descobrir a verdade, o Dr. Simon Jordan, um jovem médico estudioso de doenças mentais, faz visitas constantes à jovem prisioneira. Teria sido ela ludibriada por James McDermott, humilhada demais por Nancy Montgomery, acometida de um acesso de raiva ou o mundo simplesmente estaria sendo injusto ao condená-la à prisão perpétua?

Estados Unidos: Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou (4,5/5)

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Racismo. Abuso. Libertação. A vida de Marguerite Ann Johnson foi marcada por essas três palavras. A garota negra, criada no sul por sua avó paterna, carregou consigo um enorme fardo que foi aliviado apenas pela literatura e por tudo aquilo que ela pôde lhe trazer: conforto através das palavras. Dessa forma, Maya, como era carinhosamente chamada, escreve para exibir sua voz e libertar-se das grades que foram colocadas em sua vida. As lembranças dolorosas e as descobertas de Angelou estão contidas e eternizadas nas páginas desta obra densa e necessária, dando voz aos jovens que um dia foram, assim como ela, fadados a uma vida dura e cheia de preconceitos.

Irã: Persépolis, de Marjane Satrapi (4,5/5)

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Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos.

Nigéria: Hibisco roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie (5/5)

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A adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

Rússia: Ana Kariênina, de Liev Tolstói (3/5)

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Publicado originalmente em forma de fascículos entre 1875 e 1877, antes de finalmente ganhar corpo de livro em 1877, Anna Kariênina continua a causar espanto. Com absoluta maestria, Tolstói conduz o leitor por um salão repleto de música, perfumes, vestidos de renda, num ambiente de imagens vívidas e quase palpáveis que têm como pano de fundo a Rússia czarista. Nessa galeria de personagens excessivamente humanos, ninguém está inteiramente a salvo de julgamento: não há heróis, tampouco fracassados, e sim pessoas complexas, ambíguas, que não se restringem a fórmulas prontas. Religião, família, política e classe social são postas à prova no trágico percurso traçado por uma aristocrata casada que, ao se envolver em um caso extraconjugal, experimenta as virtudes e as agruras de um amor profundamente conflituoso, “feito de sombra e de luz”.

Eu acredito na arte como transformador social, pois promove senso crítico e empatia acima de tudo. Qualquer tipo de arte. Por isso, se livros não te motivam, procure a sua forma de arte e diversifique a que você consome.

A Jornada de Dois Ciclistas Amadores em Curitiba

Nossos pedidos a São Pedro tinham sido atendidos. Há dois finais de semana, a previsão era de temporal no domingo (o que se concretizou mais tarde, como vocês lerão). Eu e meu companheiro de pedalada acordamos dispostos por conta do sol que entrava pela janela. Agilizamos um chimarrão como fonte de cafeína, nos equipamos, acertamos o roteiro e sentamos nos nossos selins.

Chimarrão preparatório.

Rumamos sentido Juvevê, saindo da região da Praça do Japão. Quarenta minutos depois, torrando e suando debaixo do sol matinal, chegamos ao primeiro destino, o aHorta Bike Café. Desconto para ciclista, horta comunitária, construção de container e comidinhas deliciosas (COMAM OS CROISSANTS). Tomamos um café da manhã reforçado e nos espreguiçamos nas cadeiras dispostas na grama para ler.

Sofia em uma foto clássica de turista.
A tal da horta comunitária.

Continuamos nossa saga debaixo de um sol do meio dia e eu decidi ir por um caminho alternativo, prolongando em alguns km nosso trajeto até o Parque São Lourenço. A ciclovia, rente ao trilho de trem, passava por um bairro residencial sem nada de muito interessante, e as pernas já estavam implorando por uma pausa.

Depois do Parque São Lourenço, continuamos na ciclovia até Lucas indicar uma rua qualquer, na qual existe uma vendinha, onde paramos para tomar uma água de coco. Nesse momento o sol já tinha sumido, o céu estava com nuvens cada vez mais carregadas e inclusive trovoadas soaram. Pedimos encarecidamente por sacolas plásticas para proteger as coisas na mochila.

Local fornecedor da água de coco e das sacolas plásticas.

Seguimos, porque o objetivo final era chegar na Feira do Largo da Ordem para almoçar um pastel. Na altura do Shopping Mueller, começou o aguaceiro. Estava tão quente antes que fiquei até aliviada com aquele banho cortesia e dei risada da situação. Um moço que passou pela gente de guarda-chuva ainda teve a audácia de desejar uma “Boa tarde” para a dupla encharcada.

Chegando na feira a chuva parou, menos de 10 min depois de ter começado. Não tenho fotos desse momento pois estávamos com aparência lamentável e todos os feirantes já estavam se organizando para ir embora, então corremos para garantir nosso pastel.

Molhados e alimentados, pedalamos até em casa e tiramos o merecido cochilo após quase 30 km de bicicleta.

Revisitando a Casa de Anne Frank

Anne Frank foi uma daquelas pessoas que não viveu para ver o sonho dela se tornando realidade. O seu desejo era publicar um livro depois que a guerra terminasse, baseado no diário que ela manteve entre 12 de junho de 1942 e 1° de agosto de 1944. Seu pai, Otto Frank, único sobrevivente da família, foi quem o fez posteriormente.

Por mais que muitos já tenham ouvido falar de Anne Frank e por mais que muitos já tenham inclusive lido seu diário, vim contar sobre a minha experiência.

Eu nunca tive vontade de ler esse livro. Pensava que uma garota de 12 anos não escreveria tão bem e não soubesse de tantas coisas como soube Anne Frank. Mesmo seu diário tendo sido escrito quase inteiramente dentro de um esconderijo, Anne estudava álgebra (que ela odiava), mitologia, linhagens reais, e estava por dentro dos últimos acontecimentos da guerra e da perseguição aos judeus.

Kitty, sua amiga imaginária e destinatária do seu diário, ficava sabendo de tudo que acontecia no esconderijo: os conflitos, as refeições, as ameaças de serem descobertos. Anne compartilhou sua paixão, alegria, raiva e depressão naquelas páginas, de uma forma visceral e autêntica.

Mas o que tornou minha leitura tão imersiva, além disso tudo que já contei, foi o fato que eu estive lá, no dia 5 de dezembro de 2018.

Entrada para a Casa de Anne Frank, em Amsterdã
Canal que passa na frente da Casa de Anne Frank & Eu

Enquanto Anne descrevia para Kitty como era a casa do endereço Prinsengracht, 263, em Amsterdã, eu conseguia visualizar tudo na minha frente. O canal que passa por ali, a fachada da casa e todo o interior. Ela narrou como se chegava ao Anexo Secreto que ficava atrás de uma estante, e eu fiz aquele caminho. Também contou como colou diversas fotografias e recortes na parede de seu quarto, e eu vi aquelas colagens.

Planta baixa de Prinsengracht, 263, Amsterdã

A Casa de Anne Frank é um dos meus museus favoritos, que fica numa das minhas cidades favoritas. Muitos móveis e objetos foram retirados pelos nazistas, mas algumas coisas foram mantidas e o áudio que te acompanha por toda a visita é de arrepiar e fazer chorar.

Recomendo que todo mundo vá lá um dia, para sentir a energia e força da história dessa garota, dos outros que estavam escondidos com ela e de todos os judeus e outros perseguidos da Segunda Guerra Mundial. E é claro, leia o diário dela, antes ou depois, porque esse era o sonho dela.

América Latina e a língua espanhola

Optar por aprender espanhol foi a melhor escolha que eu fiz esse ano. É uma língua que carrega muita história com ela, falada em 21 países e a segunda mais falada do mundo. Entender todo esse contexto fez eu me encantar, tanto pela língua como pela América Latina.

Duas pessoas me incentivaram a aprender o idioma. Uma delas é Miriam, uma espanhola de Madrid, com o típico jeito latino, sempre calorosa e bem-humorada. A outra pessoa foi Dorella, uma italiana que tinha estado em Santa Fe, na Argentina, em um intercâmbio. Ela era simplesmente apaixonada pelo país. Isso só me motivou mais, pois sempre quis conhecer a Argentina por conta do filme Medianeras, um dos meus favoritos da vida.

Foi assim que eu comecei a refletir que eu não conhecia nada da América Latina e da Espanha, e quanta coisa há para conhecer nesses países, e o quão importante o espanhol é como idioma.

Agora estou no terceiro nível de oito que o CELIN oferece, passando por três professores maravilhosos: Cassio, um brasileiro que fala a variante mexicana; Pablo, um chileno; e Fátima, uma paraguaia.

Além disso, cada unidade do nosso livro aborda um país diferente. E eu notei como temos complexo de vira-lata, principalmente no Brasil, e como vemos muitos desses países como subdesenvolvidos e não lugares riquíssimos em cultura e diversidade. Muitos deles têm uma forte influência indígena, como o Paraguai, onde o guarani também é língua oficial. A professora Fátima tenta nos ensinar algo em guarani de vez em quando, mas vamos nos manter no espanhol que já é difícil o suficiente!

Na aula passada recebemos a visita de um intercambista do Uruguai. Eu sabia muito pouco do país e me surpreendi. As questões sociais são muito desenvolvidas. O uruguaio inclusive disse o quão assustado ele ficou com o machismo brasileiro. Uma curiosidade é o “banimento” do sal na comida servida em estabelecimentos, como uma medida de saúde pública.

A cultura hispânica é um universo maravilhoso a ser explorado. Abri meus olhos para filmes como Machuca, filme chileno sobre a ditadura militar ocorrida no país; El secreto de sus ojos, filme argentino de suspense policial; Mi obra maestra, filme argentino que se passa na região de Salta; Dolor y Gloria, história autobiográfica do diretor espanhol Almodóvar.

E sem falar dos livros! Encontrei em um sebo uma edição de La casa de los espíritus, da chilena Isabel Allende, que pertencia a uma tal de Gabriela Casagrande, do Panamá. 

Mas meu primeiro livro em espanhol está sendo El libro de los abrazos, de Eduardo Galeano, escritor uruguaio, um presente do maravilhoso rapaz que namoro. São várias historinhas sobre diferentes países, pessoas e épocas da América Latina.

Como o próprio Galeano disse na entrevista abaixo, não se pode analisar a América Latina de fora ou por cima, somente de dentro e por baixo. Por isso é tão interessante estudar o espanhol e entender esses países tão diversos que o falam.

Dois meses de BDNT

Turma de quarta-feira | 1° mês

Eu entrei em um processo. Um processo de descoberta, introspecção, observação, empatia e libertação. Um processo no qual me percebi mulher, ser humano. Um processo no qual eu comecei a problematizar o “ah, isso é besteira”. Um processo no qual eu me dei conta do quão pequena é a bolha na qual eu vivo, e quantos privilégios eu tenho. E sim, esse processo está acontecendo por meio da dança.

Eu espero que minha explicação e relato façam jus ao projeto da Jade, idealizadora do BDNT. Há quase 5 anos ela dá aulas de dança nesse espaço acolhedor, trazendo seu conhecimento de psicologia corporal para libertar as tensões do corpo e da mente. Já aviso que não se trata da dança pela dança e os estilos musicais e os shortinhos não tem nada de promíscuo ou como seus preconceitos queiram chamar.

Cada menina tem o seu propósito e as suas inseguranças quando está ali. Causa feminista, autoestima, relaxamento. O significado é você quem dá. Eu entrei no BDNT para poder me identificar com algo e desenvolver minha expressão corporal.

Na minha primeira aula, assim como toda primeira aula do mês, fizemos uma roda de conversa e a Jade nos fez uma pergunta. A pergunta era “Se você pudesse fazer o que você quiser, o que você faria?”. Fui a segunda a responder e disse que se eu pudesse não ter que lidar com o fim da faculdade e a pressão de conseguir um emprego, eu botaria o mochilão nas costas e viajaria a América do Sul. Outras trinta meninas compartilharam suas vontades, e eu me identifiquei em tantas respostas, me emocionei com outras e notei o quão complexas eram cada uma daquelas mulheres. Não sei vocês, mas eu muitas vezes tento simplificar as pessoas, como se eu entendesse elas perfeitamente. Quanta ingenuidade, não é mesmo?

Então a dança começou. Eu sempre me considerei uma péssima dançarina e dizia que era culpa da descendência ucraniana e alemã. Mas vocês têm ideia de quanta tensão a gente concentra nos nossos ombros e no nosso quadril? A verdade é que minha falta de habilidade, além da falta de prática, é ocasionada por estresse e repressão acumulados. A cada aula eu me solto mais, e desde o primeiro dia deixei a vergonha de lado e participei das gravações de vídeo para ver minha evolução. A primeira vez que vi meu vídeo, eu chorei. Chorei de alegria, porque eu estava menos ridícula do que eu achei que estaria.

Turma de sábado | 2° mês

No segundo mês, a pergunta inicial foi “O que você faz para se sentir bem?”. Foi uma pergunta que me acertou em cheio. Eu sou a pessoa que faz acupuntura, yoga, pedala, lê e não trabalha, e mesmo assim, mesmo fazendo um esforço para fazer coisas que me façam bem, não consigo estar presente e estou sempre tensa. E justo naquela semana eu estava frustrada com isso e vi quantas meninas passam pela mesmíssima coisa. Um momento aqui para expressar minha gratidão de ter mulheres como Cinthia no nosso grupo. Ela começou a resposta dela com “bebo uma taça de vinho tinto todas as noites”.

Nem toda semana é fácil dançar e esse processo não é uma escadinha, é uma montanha-russa. Um dia me sinto plena e cheia da malemolência, no outro dia tenho vontade de chorar por enfrentar as limitações do meu corpo. Mas é um processo, como falei no início, no qual eu devo aprender a me respeitar e respeitar quem está ali comigo, pois somos todas mulheres, com histórias únicas.

Eu sempre li sobre e me considerei feminista, mas achava um exagero colocar o assunto tão em pauta. Talvez porque eu nunca sofri grandes consequências e não me dava conta dos bloqueios que relacionamentos e convívios sociais me trouxeram. Hoje vejo a importância de me impor nesse aspecto e dar voz e espaço às mulheres ao meu redor, sem preconceitos, competição ou repressões entre nós mesmas. O mundo lá fora já é cruel o suficiente.

E eu encerro agradecendo a Jade, por fazer esse projeto acontecer, as meninas da turma de quarta e sábado, que fizeram eu me sentir tão acolhida, a Barbara, que topou entrar nessa comigo e é minha companheira oficial de sorvete pós-BDNT, e a Lisi e Elis, que me inspiraram a fazer parte disso. Até agora, foram duas horas semanais em dois meses que desconstruíram muita coisa.